Leah Kelley é considerada plus size

Leah Kelley é considerada plus size

 

O mundo da moda parece acontecer numa espécie de universo paralelo que pouca coisa tem em comum com a realidade. Como é que uma modelo como Leah Kelley pode ser rotulada como “plus size”? Para quem não conhece, é uma mulher linda, com um corpo magnífico e que de forma alguma pode parecer “grande” ou “gordinha” ou até mesmo “cheiinha”.

Mas no universo paralelo da moda, o corpo da mulher tem que ser cada vez mais próximo ao do biotipo de uma criança de Biafra. Culpa de quem afinal? Culpa da mídia, que divulga e determina um padrão de beleza? Culpa das moças que buscam uma aprovação estética da sociedade? Pode ser.

Mas não me sai da cabeça a atividade dos produtores de moda. Um estilista faz um vestido e quer, é claro ter sucesso. Para isso, precisa ser apresentado por uma garota bonita mas que não ameace o desenho “genial” do criador. No fundo, ele precisa apenas de um cabide ambulante e fotogênico.

Daí cria um padrão estético de mulheres sem formas, sem saliências, esquálidas. O “resto” é consequência. Esse mundo paralelo da moda invade o mundo real definindo, mais do que isso, determinando, como deve ser o corpo feminino.

A primeira top model mundial foi a Twiggy, lá pelos anos 60. Uma garota franzina, magérrrima, de olhor arregalados de surpresa e fome. Foi “coisificada” pelos estilistas e projetou-se mundialmente, criando o padrão que perdura até hoje. Uma beleza estranha, que não faz parte da nossa realidade, que não é admirada ou idealizada pelos homens, e que, por motivos igualmente estranhos, determina um comportamento feminino lamentável.

Se  fosse só um padrão estético cruel, até que dava para suportar. Insuportável é observar a escalada da anorexia que acomete as mulheres jovens do mundo todo, fruto dessa ditadura sem menor sentido. Em 2010 ocorreu a morte de Isabelle Caro, modelo francesa com um trágico histórico de anorexia. Isabelle participou de uma campanha contra esse padrão anoréxico exibindo suas formas ósseas e revelando todo o seu sofrimento para se tornar uma modelo exemplar. Morreu jovem, em 2010, vítima de pneumonia e sua mãe, cheia de culpa por ter incentivado, desde os 13 anos, a manutenção a todo custo de seu biotipo sem formas, acabou se suicidando em seguida.

Mas isso parece não ter bastado como alerta. O moda persiste em seu universo paralelo impondo padrões de beleza que continua fazendo vítimas jovens adolescentes que deveriam estar curtindo a vida. No Brasil, mais de 20% das mulheres entre 15 e 24 anos possuem sintomas de anorexia. É um número deprimente. São adolescentes e jovens mulheres que não chegaram a adquirir uma noção da realidade em função de uma imposição social, e às vezes familiar, demoníaca.

Ainda sim persiste essa tenaz busca pelo padrão anoréxico que a moda impõe produzindo aberrações desumanas que ultrapassam os limites da ética e do bom senso. Recentemente Janice Celeste, mãe da top model Sessilee Lopez, publicou o livro Making a Supermodel – A Parent’s Guide” (“Criando uma Supermodelo – Um Guia aos Pais”) como se estivesse fazendo a generosidade de dar bons conselhos de carreira. Em um dos momentos exemplares do livro, Janice cita o caso de uma modelo que engolia bolas de algodão embebidas em suco de laranja para dar a sensação de satisfação — e que, claro, acabou por ficar anoréxica.

Décadas se passam e nada muda: o mundo fashion é um caso raro em que a indústria não só adapta o seu produto ao mercado mas faz com que o público que não se enquadra no seu padrão sinta-se culpado. Meninas que deveriam estar desabrochando em suas formas mais exuberantes saem atrás de dietas milagrosas, cosméticos mágicos e cirurgias medievais. E, claro, deixam de comer, aumentando ainda mais o risco da anorexia.

Para que tudo isso? Para satisfazer as ambições desse universo de estrelas da moda, cheias de vaidade por suas criações superficiais? Para criar ícones com aparência de gosto discutível e padrões estéticos capazes de enquadrar uma mulher como Leah Kelley como “plus size”.

A mulher, em toda a sua plenitude, beleza e personalidade, só terá mesmo sua expressão máxima de liberdade e identidade quando abandonar de vez esse padrão ditatorial da moda.

 

twiggy_anorexia_poucas_palavras

twiggy foi a primeira top model mundial e inaugurou a moda da anorexia