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Disse-me, certa vez, um companheiro de trabalho e prosa: “é importante dedicar-se àquilo para o qual não se tem o menor talento”.
Foi certamente com esse espírito que me aventurei a tocar surdo de segunda na Escola de Samba Águia de Ouro, cujo curso ora frequento.
Parece um instrumento simples, mas não é. Principalmente para quem nunca se envolveu com qualquer aparelho que emita som, incluindo-se aí todos as modalidades de players existentes no mercado, com os quais mantenho relação ineficiente e nada afetiva.
De família mais dedicada aos livros, somos conhecidos por não ter nenhuma afinidade musical, além de péssimo ouvido. Meu pai era tão desafinado que podia cantar o hino nacional em ritmo de bolero sem ter a menor consciência do que estava fazendo. Minha mãe, por outro lado, dizia ter “ouvido educado” pelo hábito de ouvir música clássica e insistir em passar esses bons modos aos filhos. Meu ouvido educou-se, sim — mas na sábia prática de humildemente aceitar-se ineficiente.
Não sou surdo. Longe disso. Mas tenho cá minhas desconfianças porque, afinal, minha avó só escutava com aparelhos e meu pai, depois de velho, também. De certa maneira, talvez isso tenha me inspirado a ser um persistente apreciador do silêncio.
Eis que me vejo como um modesto aprendiz de tocador de surdo — instrumento cujo nome suscita algumas reflexões irônicas. O surdo de segunda, na bateria da escola de samba, é o que geralmente marca o ritmo, respondendo ao surdo de primeira, levemente mais agudo. Assim, basta ouvir o “tum” para produzir o “toim” e tudo dá certo, desde que no ritmo adequado. Parece simples, mas na minha pobre musicalidade já se configura um excesso de informação bem complicado.
E daí tem as “viradas” — de dois e de três. O surdo de segunda, nessas situações, não tem que fazer nada, apenas seguir seu ritmo, mantendo a batida como sempre. Mas o surdo de primeira muda. E aí, como é que fica? Fica perdido. Eu pelo menos.
Superado esse primeiro desafio, há os breques. Breque é quando se pára de tocar, certo? E não pode haver nada mais simples do que isso. O problema é que logo em seguida o breque acaba e é preciso voltar a tocar. Mas quando exatamente? Simples: quando o repinique fizer ta-ca-ta-ra-ta-ta e o surdo fizer “tum” é a hora do “toin”, ou seja, do surdo de segunda. Mas esse é o breque mais simples. Há outros mais complicados e que são explicados com frases do tipo: “na hora que a caixa sobe, pa-ca-ta-ra-pa-ca-ta-ra-ca-pa, entra na virada dois, “tum” “tum”, “toin”, toin”, e xa-ca-ra-ca-ca nos chocoalhos. E daí sobe!
Hã?
Olho o meu colega de curso e pergunto: “Entendeu alguma coisa?”. Ele faz um sinal com os ombros que parece significar algo como “claro!”, “foda-se!” ou “não escutei” — qualquer um dos três. E a aula prossegue com meu excelentíssimo mestre repetindo, pela 15a vez, “mano, você errou, você tá batendo o de primeira”.
Apesar disso, a vida vem seguindo e eu estou pronto a vencer um verdadeiro desafio existencial que está muito além de ter sucesso na vida profissional, amar uma mulher como ela merece, criar filhos bem educados e éticos e pagar minhas contas.
Talvez nada disso aconteça. Mas não duvidem que estarei no carnaval de 2014 compondo o maravilhoso time da bateria da Águia de Ouro, nota máxima do desfile paulista, liderada pelo Mestre Juca, carregando meu querido surdo de segunda e, mais importante, marcando o ritmo, fazendo viradas e breques, como se deve fazer. O importante é conseguir fazer aquilo para o qual não se tem o menor talento.