O racismo está profundamente enraizado na nossa cultura e sociedade. Na era do politicamente correto, os pequenos gestos e palavras que por ventura possam conter algum tipo de manifestação racista, ou levantar suspeitas de, são imediatamente acusados, reprimidos e condenados.

Parece justo. Mas nem sempre é.

O Instituto de Advocacia Racial (Iara) levou ao Supremo um mandado de segurança pedindo a recuperação de uma determinação do Conselho Nacional de Educação. Nela, os  livros de Monteiro Lobato não seriam mais distribuídos à rede pública de ensino por ter conteúdo racista. Um dos exemplos deste conteúdo estaria no livro  As Caçadas de Pedrinho, em frases como essa: ““Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou, que nem uma macaca de carvão…”

Dizem que Monteiro Lobato era racista e entusiasta da eugenia, uma espécie de ciência ideológica que defendia a superioridade ariana.

Mas, na verdade, a discussão não é essa, e quando o assunto entra nas esferas do politicamente correto, sobrevém uma espécie de miopia coletiva, com clara vocação para a histeria, em que sobrevive um só olhar, um só parâmetro e um só julgamento.

Monteiro Lobato é um dos maiores escritores da literatura brasileira. Sua obra, em particular os livros infantis, ocuparam, formaram e desenvolveram todo o imaginário de algumas gerações, infelizmente não as mais recentes. Nenhum de seus livros preocupa-se em manifestar suas ideias racistas, se é que elas existiam de fato. Preocupa-se apenas em praticar o mais belo, criativo e ousado conteúdo literário. E, ainda de quebra, valorizar elementos da cultura brasileira como nenhum outro escritor foi capaz de fazer.

Se há manifestações racistas em seus livros (o que é discutível) elas não devem predominar sobre sua obra. Em outras palavras, não devemos excluí-la do nosso repertório literário — é um preço alto demais.

Permitir que a miopia do politicamente correto prevaleça sobre obras primas e universais é um assassinato cultural. Porque, além de tudo, é uma penalidade que opera com a mesma moeda do racismo. A exclusão de quem exclui. Em muitos casos, exercer o politicamente correto não é nada politicamente corretomonteiro-lobato620