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Aos 40 anos de idade, o vetusto programa Fantástico, que já foi o “Show da Vida”, enfrenta uma  indiscutível decadência de audiência. Hoje, segundo o Ibope, dificilmente alcança 20% dos domicílios. A decadência é ainda maior quando se analisa o público que ainda persiste em ver seus quadros e matérias: 36% tem mais de 50 anos de idade e apenas 9% está entre 18 e 24 anos de idade — segundo dados da própria Rede Globo.

A emissora justifica os números baixos por meio de um discurso de técnico de futebol — “má fase” dizem, numa vã tentativa de ignorar a curva descendente de audiência que o programa vem enfrentando nos últimos dez anos:  em 2003, a média foi de 36,3%; em 2008, 26,3% e em 2012, 20,1 %. Neste ano, às vésperas de completar 40 anos de idade, o Fantástico dificilmente  atinge a casa dos 20% e já bateu seu recorde histórico negativo: 17,5%

É muito pouco para um programa que reinou absoluto nas noites de domingo, simbolizou uma época áurea de TV e que, por 30 anos seguidos, manteve-se numa média de 50% de audiência entre os domicílios.

Criado por José Bonifácio Sobrinho, o então todo-poderoso global Boni, o Fantástico foi ao ar pela primeira vez em 5 de agosto de 1973. A ideia era reunir, em formato de revista, os ingredientes de sucesso que a Globo possuía: novela, jornalismo, esportes e reportagens — sempre com um apelo popular. Além disso, se dava ao luxo de aparentar uma certa “ousadia”, utilizando-se de aberturas futuristas e a marca registrada de sua trilha sonora.

Nada disso parece sensibilizar a audiência mais jovem, capaz de dar sustentação à continuidade do sucesso. As vinhetas, hoje, são comicamente futuristas, perto do que se pode se ver no cinema e em outras mídias. As matérias, apesar da luxuosa produção, não alcançam a credibilidade desejada pelo público jovem e, apesar de esforços pontuais que permite picos de audiência, eles não são sustentáveis.

Na verdade, a queda de audiência do Fantástico é mais um sinal da decadência, em termos de audiência, da própria Globo — e, por extensão, da TV como um todo. No início deste ano, a emissora reconheceu que 2012 foi o pior ano da história, com uma média geral de 14,7%, uma queda brusca em relação a 2011 (16,3%). O Jornal Nacional, entre os anos 1970 e 1980, chegou a ter uma média de audiência de 80% dos domicílios — hoje, não passa de 27%. As novelas, que sempre garantiram uma audiência fiel, também caíram. Nunca mais se obteve o sucesso de “O Astro” que, em 1976, chegou a atingir 100% de audiência entre os aparelhos ligados. Ao contrário: a novela “Salve Jorge” terminou em maio com o pior desempenho de todos os tempos — uma média de 34%.

A verdade é que a audiência da TV, em geral, vem despencando, lenta e gradualmente, ano a ano. Em 2012, houve uma queda geral de 4% na audiência, segundo o Ibope-Media. E mesmo a TV paga, vinha aumentando seus números, passa por momentos de estabilidade em seu crescimento.

Enquanto isso, um outro número divulgado pelo Ibope-Media também é eloquente: 134 milhões de pessoas, com 10 anos e mais, têm um telefone móvel no Brasil, dos quais 52 milhões têm acesso à internet.

Seria um julgamento apressado afirmar que uma mídia está destruindo a outra. Mas parece natural concluir que, no mínimo, o velho modelo centralizador e onipresente da TV e, principalmente, da sua representante máxima, a Globo, está  em desuso. A pulverização, ainda que seja um fenômeno apenas momentâneo, é inegável. Também é inegável que a geração mais jovem busca variedade e credibilidade nas fontes de informação e entretenimento — algo que a TV já não oferece.

Dizem que, aos 40 anos, entra-se na idade da reflexão. Uma ótima oportunidade para o Fantástico e a Globo pensarem um pouco mais sobre seus destinos — principalmente na sua postura ética, na qualidade de suas informações e na adequação de seus programas.

Chamamos de cinquentão, mas, na verdade, o Fantástico completa 40 anos em agosto de 2013