Por Filipe Amado, do Cairo, Egito

 

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Alguns dias depois da queda de Mohamed Mursi, destituído da presidência do Egito por militares, a situação no Cairo está tensa. Nesta segunda-feira, a polícia entrou em choque com representantes da Irmandade Muçulmana, partido que sustentava a posição de Mursi, provocando 42 mortes e mais de 300 feridos.

Apesar da queda de Mursi ter sido reflexo de um movimento popular, há muitas incertezas entre a população, ainda que esteja aliviada com sua saída. Há um sentimento misto de impotência sobre os destinos do poder egípcio e, ao mesmo tempo, uma esperança de que a situação do país melhore.

Principalmente no que se refere ao turismo, a principal fonte de renda do país. Mursi e sua política religiosa pró-muçulmana inibiu o fluxo de turistas ao país, provocando resultados desastrosos. Luxor, por exemplo, está vazia. A cidade, uma antiga capital do império egípcio, vive praticamente do turismo graças aos belos templos e monumentos que preserva. Se o fluxo de turista já tinha diminuído, nos últimos tempos a situação piorou ainda mais com a crise política. A culpa, segundo muitos egípcios, é do presidente Mursi e seu governo, que não fizeram nada para incentivar o turismo após um ano de mandato. “Mursi apenas pensa na religião, que é importante, mas não sobrevivemos só com ela”, diz Mustafá Fáuzi, capitão de uma feluca, pequena embarcação a vela típica da região do rio Nilo. Mustafá tem tido dificuldades para manter seu barco devido à ausência de turistas e atribui a situação ao ex-presidente que “faz igual a Mubarak, privilegia apenas as pessoas a sua volta, os membros da Irmandade Mulçumana, o resto do povo fica esquecido”.

Assim, há um certo sentimento de que, apesar de tudo, a época em que Mubarak governava era melhor. “Mubarak era corrupto, mas pelo menos havia turistas aqui no Egito. Eu gostava de seu governo porque voltava para casa com o bolso cheio de dinheiro. Agora eles estão vazios”, diz Jaba Adilah, gerente de hotel em Luxor . Uma opinião corrente na cidade: antes havia turismo e portanto dinheiro, agora não há turismo nem dinheiro.
Apesar do descontentamento geral com o presidente deposto, Mursi era querido por uma parte da população, principalmente pelos mais religiosos. “Mursi é um bom homem, sempre querendo  ajudar as pessoas. O problema são os burocratas que não o escutam. O exército, por exemplo não gostava dele, por isso que o tiraram do poder. Mas não podemos esquecer que ele ainda é o presidente eleito pelo povo”, diz Ahmed 29 anos, mulçumano devoto que trabalha para o governo com escavações arqueológicas.

Há uma preocupação indisfarçável pelo fato de que, afinal, foi o exército que promoveu a saída de Mursi, colocando o país sob      as suspeitas que giram em tornos dos golpes militares, mas que não preponderam sobre o anseio da população em retirar Mursi do governo. No dia da queda do presidente, a pequena Luxor estava em festa:  buzinas incessantes e fogos de artifício por todos os lugares. Nas ruas,  as pessoas aplaudiam os helicópteros das Forças Armadas que sobrevoavam a cidade. “O exército fez a vontade do povo. Alguém precisava fazer alguma coisa, a situação era insustentável e ele nunca iria sair por vontade própria.”, diz Jaba, quando o assunto se refere a um suposto  golpe de Estado.

Seja como for, os egipcios agora rezam, mais do que nunca, para que o próximo presidente promova um Egito melhor. “Inxala”, é o que repetem — “se Deus quiser”, em árabe.