Por Anderson Dias

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Os preparativos para a Copa do Mundo surpreendem cada vez mais — e para pior. O Tribunal de Justiça (TJ) do Amazonas sugeriu que a Arena Amazônia, atualmente em construção, na capital do estado, Manaus, seja utilizada após o Mundial como centro de triagem para presos. Atualmente, o espaço utilizado para essa finalidade é a Cadeia Pública Raimundo Vidal Pessoa, superlotada e em condições inadequadas de saúde. De acordo com os números do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o local tem capacidade para 300 presos e conta hoje com cerca de 1100. Ou seja, uma prisão ao custo de aproximadamente R$ 800 milhões.

Em 2013, o Estado do Amazonas tem apenas um representante no Campeonato Brasileiro, e na Série D, o Nacional. Mesmo os clássicos de Manaus entre São Raimundo, Fast Clube e o próprio Nacional são realizados no estádio do Sesi, que tem capacidade para 5 mil pessoas. O campeonato amazonense, se tivesse todas as partidas disputadas ao mesmo tempo, não teria público suficiente para lotar a Arena Amazonas, que terá capacidade para 43 mil pessoas e um custo mensal de manutenção de R$ 500 mil.

Quando o Brasil revelou, em 2008, que teria 12 cidades como sede de partidas da Copa do Mundo, logo vieram algumas dúvidas. Em estados com pouca tradição futebolística, como são os casos do Mato Grosso, Amazonas, Distrito Federal e Rio Grande do Norte, logo se perguntou o que seria feito destes novos estádios após a competição organizada pela Fifa. Nem o Governo Federal, Ministério do Esporte, administrações estaduais ou municipais respondem diretamente. No caso de Manaus, por exemplo, só após a conclusão da arena é que vai ser buscada uma empresa privada para assumir o empreendimento.

Afinal, qual é a necessidade real de termos 12 sedes na Copa do Mundo? As cidades que ficaram de fora do Mundial, como é o caso de Belém, Florianópolis, Goiânia e tantas outras, são piores por esse fato? Houve ou não acordos escusos nos bastidores políticos para escolher locais com pouca ou nenhuma tradição no futebol?

Sem contar que algumas seleções, objetivamente, vão sentir na pele os fatores clima e fuso-horário. Equipes que vão atuar, por exemplo, em Manaus e Porto Alegre, serão submetidas a viagens continentais e a uma brusca mudança de temperatura, tendo em vista que a Copa do Mundo ocorre em junho, no inverno, muito frio no Sul e quente e seco no Norte e Nordeste.

Quando se criticam decisões como essas, logo aparecem repostas recheadas de “amor à pátria”, dizendo que tratam-se de considerações pessimistas. Há até indústrias cervejeiras que concordaram com a realização da Copa do Mundo nessas condições quase com uma obrigação. Criou-se então um cenário perfeito para dirigentes comprovadamente corruptos e variados esquemas duvidosos.

Não se nega que eventos do porte de um Mundial da Fifa poderiam, teoricamente, dar contribuições ao país. O incentivo ao esporte e os investimentos necessários em infraestrutura deveriam proporcionar um legado importante e permanente para a população local. Ainda assim, no Brasil, as obras tardaram a ser iniciadas e, muitas, foram descartadas por falta de tempo hábil para conclusão.

No entanto, construir um estádio de futebol onde esse esporte subexiste, prejudica a credibilidade do evento e daqueles que o organizam. Imagine então as dificuldades que serão evidenciadas em Manaus, Cuiabá, Natal e até mesmo em Recife, onde foi construído um estádio moderníssimo, sendo que os três grandes clubes locais (Sport, Náutico e Santa Cruz) contam com suas próprias arenas.

Se os cidadãos terão poucas ou nenhuma chance de pagar altíssimos valores para assistir aos jogos da Copa, já podem comemorar algo. O mínimo de espírito crítico foi ativado no Brasil e, em 2014, são grandes as chances de as ruas novamente serem tomadas por pessoas revoltadas com a Copa e reivindicando um país melhor. Que role a bola, mas que nunca se esqueça o respeito a aqueles que constroem o país diariamente