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Se tem algo que as facções mais conservadoras e de direita não sabem fazer é uma manifestação pública. Essa foi pelo menos a impressão que ficou depois da versão contemporânea da Marcha da Família com Deus, em comemoração aos 50 anos da original.

Os discursos que ocuparam as quatro horas de concentração e passeata pelo centro de São Paulo pareciam um samba do crioulo doido, para citar nosso célebre Stanislaw Ponte Preta, o Sérgio Porto. “Nós não queremos uma nova ‘revolução’ militar”, pregava em brados o Mateus, vendedor de software, que não quis dizer o sobrenome porque ele “representa o povo brasileiro”. “Queremos resgatar o que foi feito em 1964, em nome da justiça e do fim da baderna da sociedade brasileira”. Camiseta branca, sinais de graxa no rosto e nos braços como um soldado do Vietnã, e um enorme crucifixo pendurado no pescoço, Mateus era o líder do grupo de segurança e um dos organizadores da manifestação. Não subiu no palanque improvisado sobre um ônibus todo preto e pichado com palavras de ordem. Mas proferia suas ideias em altos brados, acompanhado de seu séquito de fortões portando pavilhões coloridos que lembravam os embates com lança da idade média. Mateus estava nervoso. Tinha os lábios cobertos de saliva ressecada e lançava perdigotos contra um pequeno grupo de jornalistas com olhares assustados. “Nós queremos acabar com os comunistas”, repetia. Mas o que é comunista? Alguém pergunta: “são todos aqueles que se opõem à revolução”, responde sem hesitar. Será uma nova contribuição às teorias marxistas?

Havia uma tensão no ar naqueles primeiros momentos em que cerca de 200 pessoas se reuniram na praça da República para a concentração. No palanque, Mike Brasil, um dos principais líderes do movimento, vociferava os mais diversos repúdios — ao PT, aos impostos, a Cuba, a Dilma e Lula, ao aborto, ao roubo, ao voto livre. “A bolsa família dá de cara 40 milhões de votos a esse bandidos”. Palmas, palavrões, “vai pra Cuba que o pariu!”, “porte livre de armas!”, “Forças Armadas já!”, “lugar de bandido é na cadeia”, manifestava a plateia, já perdendo a timidez. “Intervenção militar já!”, gritava Mike. E dá-lhe Hino Nacional com a mão no peito e cara de choro. Depois, o próprio Mike me explicou sua “ideologia”: fundar oficialmente o PMB, Partido Militar Brasileiro, e lançar como candidato à presidência o General Augusto Heleno, chefe da missão brasileira no Haiti. Será que existe uma relação com a situação brasileira?

A tensão continua e um repórter recebe um golpe de mala de um médico que participava dos protestos. A polícia recolhe o repórter, ferido com um talho no rosto. “Não gosto nada disso”, diz Anderson Pimentel, estudante de física da Usp, declarando-se “direita liberal”. “Nós não podemos reagir dessa maneira sob o risco de dividir o movimento”. Faz um ar de ponderação e dispara: “Sou contra a intervenção militar, a não ser que seja necessário”. Será que isso é uma espécie de dialética de direita?

Do outro lado, Bruno Toscano Franco, tido como um dos organizadores do movimento, repete as mesmas frases que vem dizendo já há algum tempo, como num roteiro: “nosso movimento é contra a corrupção. E é necessária a intervenção militar porque não confiamos nas urnas eletrônicas. Queremos acabar com a ameaça comunista”. Comunismo é uma palavra-chave. Sintetiza uma espécie de sombra maligna que provavelmente surgiu de algum porão da União Soviética ou da China para impedir a evolução do ser humano. Do palanque, avisam que é preciso esperar um pouco mais: a “esquerda” está na Praça da Sé, destino da “direita”. “Nossos irmãos da polícia militar estão pedindo mais um tempo”, grita um ser estranho, de terno surrado e óculos escuros. “Polícia Militar! Polícia Militar!”, a plateia rende uma homenagem — e não foram poucos os que cumprimentaram, um a um, os policiais enfileirados. Mais discursos evocando o fim da “ditadura do PT”, sem constrangimento de usar todos os tipos de xingamento da língua portuguesa. De repente, um silêncio. Deu a impressão de que não havia mais o que falar. Um senhor na plateia tratou de chamar atenção dizendo que tinha estado ali, naquela mesma praça, em 68, quando “nós acabamos com aquela bagunça”, referindo-se aos protestos de então contra a ditadura. “Varremos os caras”, resumiu, explicando que na época era militar da ativa — hoje está na reserva. Do lado dele, um manifestante bem mais jovem, balança a cabeça em reprovação e recebe olhares de censura. Será um conflito de gerações?

É hora de partir. Nesse momento, a manifestação parece ter cerca de mil pessoas, ou pelo menos o suficiente para ocupar a Av. São Luís inteira. Há um certo ar de cansaço geral, mas o séquito segue em frente, ainda tenso. Na catedral da Sé, se reúne na escadaria e o caminhão de som reproduz o hino da ditadura “Eu te amo, meu Brasil”. Houve quem ousou provocar os manifestantes, fazendo oposição e iniciando um corre-corre que acabava com a intervenção da polícia. Três pessoas foram detidas. Duas, por jogar pedras na polícia e outra porque rasurou com spray uma das faixas da manifestação. “Foi enquadrado em crime ambiental”, explicou o major, responsável pela operação da polícia militar. “É bem pior que só enquadrar como dano, pode pegar três anos e meio de prisão”. Crime ambiental? Será que é uma manifestação contra a poluição?

 

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