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O viajante que visita a região de Israel e Cisjordânia, se tiver um mínimo de bom senso, não poderá evitar a pergunta: mas, afinal, porque esse povo está em guerra?

Talvez essa pergunta já tenha atravessado as décadas, com respostas as mais diversas. Mas talvez guarde uma ingenuidade que não registra os meandros da política internacional, dos conflitos entre poderosos, da disputa pelo polinômio poderpetróleodinheiro.

Mas, seja como o for, o conflito que volta e meia provoca troca de misseis, mortes, bombas e terror, parece passar ao largo na vida diária tanto de palestinos como de israelenses. Há paz. Mais de 60 anos de guerras e enfrentamentos foram mais do que suficientes para provocar em ambas as partes uma espécie de torpor enfastiado, uma eterna sensação de deja vu e uma resistência quase inconsciente para iniciar uma discussão sobre a questão ou mesmo manifestar algum tipo explícito de antagonismo.

A menina israelense com cara de estudante, cabelos loiros compridos, não mais do que 20 anos, revista o carro do visitante à procura de bombas. De vez em quando, ela olha e lança sorrisos de simpatia. O bom senso diz que ela deveria estar, naquele momento, terminando a faculdade, se preparando para ir a uma balada, namorando. Mas, em vez disso, ela carrega uma metranca quase tão comprida quanto sua perna. E não resiste à tentação de perguntar, cheia de curiosidade, já que não pode entrar na Cisjordânia: “Como que é lá?”

Do outro lado, o garotão palestino ouve um som no seu iPod, usa tênis Nike e camiseta da Arena. Fala com saudades da viagem que fez a Israel, dos amigos judeus, pacifistas, que encontrou por lá e do mar, que viu pela primeira na vida. Em nenhum momento mostra algum tipo de revolta ou agressão aos vizinhos.

Sim, vizinhos. As fronteiras entre os dois países, considerando que há um país palestino, estão consolidadas. Não há como mudar mais essa realidade. Israel construiu muros ao longo dessa fronteira. Dentro do território da Cisjordânia, as cidades palestinas prosperam e crescem. A Palestina existe de fato, mas não de direito. E Israel está muito bem dentro dos limites atuais.

A verdade é que não há um conflito territorial. Também não é religioso o conflito — religiões nunca, de fato, geraram conflitos ao longo da história, a não ser quando foram usadas como instrumento e pretexto para interesses outros, como sempre, poder e dinheiro. O conflito não é étnico — até porque, no fundo, palestinos e israelenses estão cada vez mais parecidos, fisicamente mesmo. As misturas, os ares da região, preconizam um etnia única no futuro.

Enfim, a dúvida permanece. Na verdade, a ONU recém fundando, em 1947, foi irresponsável ao determinar que naquela região seria instalado o Estado de Israel, porque, afinal, não fez nada mais do que assinar um pedaço de papel. Os árabes também erraram, como disse o próprio Mahmud Abbas, autoridade palestina, ao declarar imediatamente guerra ao novo país. Os britânicos, diante da decisão, simplesmente se retiraram da região que então ocupavam, procurando livrar-se do problema. No fundo, interessava aos Aliados, ou mais especificamente aos Estados Unidos, consolidar um enclave ocidental dentro daquela região dominada por árabes e petróleo. E é assim até hoje. O povo que vive lá que se dane, à mercê das decisões políticas, das estratégias internacionais, do jogo global sem fim. E o povo de lá não quer se danar: quer apenas viver uma vida digna, sem guerras e mortes, sem iras e mágoas.

Por que não uma Isaraelina?