guerrilheiros620

Josef K., que todo dia acorda com a sensação de fazer parte de uma obra de Kafka, teve um dia de revolucionário ou coisa parecida. Isso porque precisou comprar remédio para aplacar uma persistente dor de dente que lhe acometia. Quando dirigiu-se ao caixa para pagar, a gentil atendente comunicou-lhe que o sistema tinha caído. Josef tinha pressa, a dor era imensa e, enquanto esperava o sistema recuperar-se para a vida, tomou o remédio. De modo que já não pôde desistir da compra.

Triste decisão. Passaram-se dez minutos e Josef ouviu uma série de barulhos tecnocratas vindo do caixa. Sim, disse a atendente, cutucando o teclado, com marcas de reflexão no rosto, concentrada, como se estivesse prestes a descobrir a cura da Aids. Mas, continuou ela, fazendo pausas enigmáticas, o caixa ainda não está liberado. Josef, irritado, resignou-se a esperar, olhando com fingido interesse os rótulos de caixas de algodão e nebulizadores. Mais outros dez minutos. Josef estava nervoso, mas felizmente a dor já tinha melhorado. “Senhor, mais um momentinho”, disse a atendente. Por que? Vamos precisar imprimir todas as notas fiscais emitidas antes de cair o sistema. Mas não dá para eu pagar antes? Não dá, senhor. O sistema não aceita.

Josef K. não é desonesto. Se compra algo, considera que houve um acordo entre as partes que pressupõe a aceitação do valor e a execução do pagamento. Mas como enfrentar o sistema? Ele olhou para a atendente e disse: “Sou contra o sistema. Não vou pagar. Tchau”.

“Sem noção”, diz a atendente.