ecobag620

Certo dia, Rafael, rapaz de saudável consciência contemporânea, decide que deve comprar uma ecobag para dar conta de seus ideais sócio ambientalistas. No supermercado, paga 28 reais pelo produto e sai satisfeito por não precisar mais consumir sacolas plásticas.

Rafael, rapaz cuidadoso e atento, resolve examinar os detalhes da ecobag e descobre, ainda que sem surpresa, que a danada é mais um produto “made in China”. Rafael, rapaz bem informado, imediatamente constata que a dita não deve ter custado mais do que 3 reais aos cofres do supermercado, gerando um lucro não só injusto como abusivo.

Não apenas isso. Rafael, rapaz astuto e questionador, ensaia um imaginativo, porém provável, percurso que a ecobag fez desde seus primórdios, em alguma aldeia remota da China. Lá, numa fábrica gigante, os 5 mil empregados, trabalhando 18 horas por dia por um salário inferior a 100 dólares e sendo obrigado a dormir em alojamentos insalubres, apresentam alto índice de acidentes de trabalho e de doenças provocadas pelo contato com material que fabrica a ecobag, mistura de nylon, subproduto de petróleo, com fibras de vegetais cultivados na Indonésia por mão de obra infantil.

As centenas de ecobags destinadas ao supermercado em que Rafael, rapaz meticuloso, sempre faz as compras, são enviadas ao porto de Shangai por caminhão. Contratado por valores aviltantes, o caminhão está em péssimo estado, com freios gastos e motor desregulado, e, portanto, emitindo um alto índice de gás carbônico, ainda mais por fazer todo o trajeto em um monstruoso engarrafamento, obrigando o motorista a permanecer 36 horas à direção, sem dormir e se alimentando em péssimas condições. Ao chegar no porto, a mercadoria é embarcada num velho navio desmantelado, de bandeira internacional, sem obrigatoriedade de obedecer leis de qualquer país — inclusive de salubridade, de relações de trabalho e ambientais.

O navio, ao chegar ao porto, recebe a informação de que, devido ao grande movimento de descarga, há uma espera de quatro dias, e assim passa todo esse tempo manobrando na baía em função da maré, despejando meia tonelada de óleo diesel queimado na linha da costa. Durante esse tempo, os marinheiros ociosos desembarcam dispostos a se divertir um pouco, são levados a uma casa clandestina de prostituição infantil e só não são presos porque concordam em dar uma contribuição ao esquema.

Quando finalmente a carga é desembarcada e enviada para o distribuidor, Rafael, rapaz razoável, encerra, aflito, seus pensamentos e decide tomar uma atitude: devolver a ecobag e pedir o dinheiro de volta. Rafael, rapaz esperançoso, mal sabe que o supermercado não obedece a lei do consumidor e recusa devoluções.