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Todos os dias, dona Magali cumpria uma rotina exemplar: levava as miudezas do seu lixo, criteriosamente separadas, aos recipientes públicos de coleta seletiva. Ela tinha orgulho de seu exercício de cidadania, de sua “consciência ecológica” e de sua responsabilidade com as gerações futuras.  Tinha. Até que um belo dia aconteceu de ela ver o caminhão de lixo passar e simplesmente esvaziar todo o conteúdo dos diversos recipientes, misturados, na caçamba.

A decepção da dona Magali é potencialmente de todos os brasileiros. Afinal, uma pesquisa recente do Ibope revelou que 85% dos entrevistados estariam dispostos a separar o lixo para facilitar a reciclagem. Gestos quase inúteis. São esforçados batalhadores de uma alegada consciência ecológica.

Isso porque a política de reciclagem do Brasil é quase uma piada. Apenas 18% dos municípios brasileiros possuem coleta seletiva, e só de uma pequena parte do lixo. No Brasil, cada pessoa gera, em média, um quilo de lixo por dia e, por ano, são produzidos 55 trilhões de quilos.

Mas, na verdade, todos esses números apontam apenas uma pequena, quase insignificante, parte da realidade. Isso porque apenas 2,5% do lixo é produzida nos centros urbanos — a maior parte vem da pecuária, agricultura e mineração.

Mas o lixo ainda produz outros fatos chocantes. O  Brasil, por exemplo, orgulha-se de ser campeão mundial da reciclagem do alumínio. E é verdade. Mas não deveria ser motivo de orgulho. Isso porque o alumínio só é reciclado aqui porque produz lucro neste processo. E é lucrativo porque a coleta do alumínio é baseada numa mão de obra baratíssima, quase escravizada, dos catadores de lixo, que cumprem essa função vivendo abaixo da linha da pobreza, sem nenhum benefício trabalhista e sem reconhecimento da profissão. Para piorar o quadro, apenas 2% do lixo brasileiro é composto por alumínio e todos os outros metais juntos.

Esses fatos não serviram nem um pouco de consolo para Dona Magali. Apesar de tudo, ela continua separando o lixo e mostrando como se faz a seus sobrinhos.  Se essas lições não servirem agora, pensa ela, haverão de servir no futuro.