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A cena é comum: no restaurante, quatro pessoas esperam ser servidas. É hora do almoço em São Paulo, o ritmo é forte. Nenhuma das quatro conversa entre si. Duas delas falam ao celular. A terceira, cutuca um iPod. A quarta, cutuca um iPhone. Mandam torpedo, falam, trocam mensagens no Facebook. Sei lá.

Qualquer coisa que estejam fazendo, não estão ali, naquela mesa, convivendo com aquelas pessoas. Ali encontra-se apenas a presença física deles, o espaço que ocupam na física newtoniana do planeta. Ah, sim. Vão se alimentar ali, atender a uma necessidade básica do ser vivo, dar prosseguimento ao privilégio da existência que lhes foi conferido. Mas não estão exatamente ali. Estão na verdade divididos, multifacetados, vivendo duas realidades diferentes — a virtual e a real.

Dizem que as novas gerações já se desenvolvem com essa possibilidade, a de ter a capacidade de fazer, ou melhor, de estar, em dois lugares ao mesmo tempo. Dois ou mais. A multiplicidade da vida contemporânea, representada principalmente pelas internet, condenou a linearidade analógica, permitindo uma espécie de esquizofrenia oficial, da qual todos “sofrem” e ninguém é de fato doente.

É tudo aquilo que os budistas evitam (ou não compreendem). Qualquer coisa que você faça deve ser realizada com concentração total, 100%.  Ainda que seja lavar louça ou cortar as unhas.

A vida contemporânea enfrenta a sabedoria budista e nos dá esse indivíduo naturalmente esquizofrênico, capaz de estar em dois ou mais lugares ao mesmo tempo. Os relacionamentos virtuais, assim, se proliferam criando o ambiente perfeito para a construção de personagens idealizados.  A realidade naturalmente se desdobra em ficção, criando planos de vida distintos para o mesmo indivíduo.

A comida chega e os quatro, por fim, se desconectam de suas respectivas realidades virtuais. De repente, estão todos disponíveis, encarando-se frente a frente. Mas o silêncio impera. Eles não conseguem trocar palavras. Tudo que fazem é se servir em silêncio, mastigar e engulir a comida.

A realidade real é muito entediante.