Dayanne

 

Eu sou mais uma Maria. Como muitas,  sempre segui meus ideais com uma enorme fé na vida. Quando estudante, fui considerada pelo Secretário da Educação Gabriel Chalita uma das  mais promissoras de Diadema, a cidade onde entendi que a vida não era um filme e não tinha dublê.
Eu tinha uma vida normal e boa.Até que fui abusada e minha vida nunca mais foi a mesma. Nunca contei pra ninguém o que aconteceu. Eu tinha  vergonha muita vergonha.

Mas eu fui uma vítima. Estava na festa de aniversário de uma amiga, na casa dela, quando me doparam e não lembro de nada. Lembro apenas que acordei com a sensação de que algo tinha acontecido, meu corpo usado e maltratado. Mas não sabia quem tinha feito aquilo e como. E tudo que podia sentir era vergonha e tristeza.
Mas o terror apenas tinha começado. Dois meses depois tive bons motivos para fazer um teste de gravidez. E deu positivo. Meu Deus! Eu estava grávida! Uma menina que nunca tinha tido namorado, uma garota responsável, cheia de sonhos e desejos, que merecia a confiança dos pais, que pouco saía de casa e… grávida! Como entender e como explicar?

Lembro que saí caminhando pela rua, desesperada, chorando, andando sem destino, e as pessoas me perguntando o que estava acontecendo, querendo ajudar. Eu não queria, eu não podia, ter um filho. Não! Já tinha decidido que não. Não iria contar para ninguém. Então peguei uma caixa de remédios e tomei todos os que restavam.
Lembro apenas que acordei no hospital, minha mãe do meu lado, e o médico dando a notícia para ela.

– Esta tudo bem com o bebê que ela esta esperando.
Quando meu pai e minha família perguntavam de quem era esse bebê eu só conseguia chorar. Eu não lembrava de nada e não queria me expor mais ainda. O período da minha gravidez foi difícil. Fui tomada pelos sentimentos mais intensos e contraditórios. Ao mesmo tempo que sentia raiva de tudo que tinha acontecida, surgia em mim um grande  amor por aquela criança: ela não tinha culpa de nada.

Os meses passaram e já estava na hora da minha filha nascer. Eu já estava acostumada com a ideia e fazia muitos planos de vida para nós duas.

Mas, novamente, ao acordar no hospital, depois de fazer uma cesárea, tive uma péssima notícia: minha filha não tinha suportado viver nesse mundo. Morreu com apenas cinco minutos de vida. E daí meu mundo desabou sobre minha cabeça mais uma vez: depois de passar por tudo aquilo, não teria minha filha, não teria por quem lutar. E resolvi me bloquear do mundo.

Daquele em momento em diante eu decidi que nada de bom existia para eu acreditar.
Então comecei a sair, a conhecer pessoas, a socializar. E conheci gente importante. Políticos, empresários, pessoas que tinham vida pública e zelavam por sua imagem. Com um deles, um político, estabeleci um relacionamento. Ele me ajudava financeiramente e logo fui morar sozinha.

Mas só dinheiro não basta para o meu coração.

Então encontrei uma outra pessoa que me despertou bons sentimentos e acabei engravidando novamente.  Eu ainda era nova e inexperiente, não sabia reconhecer o tipo de pessoa com quem me relacionava. E quando ele soube da gravidez, pediu que eu abortasse.

Eu nem respondi. Simplesmente sumi do mapa. Arrumei um emprego numa empresa de assessoria na área de saúde e passei toda a gravidez trabalhando lá. Fui vítima de preconceito: ainda existe a ideia de que uma mulher grávida não consegue desempenhar suas funções plenamente.

Enfim, meu filho nasceu. Sós, ele e eu, o pai nem soube do nascimento. Mais tarde, quando viu a foto do menina,  ficou comovido e, sem que eu pedisse, se arrependeu do que fez e assumiu a paternidade.

Um ano depois, encontro de novo o político que havia me ajudado tanto. Voltamos a nos relacionar, mas desta vez eu não queria nada dele, apenas carinho e atenção. Apesar disto, ele continuava me ajudando, até mesmo quando precisou se afastar de mim por motivos pessoais. Dinheiro não era problema. Mas eu estava novamente só.

Foi então que conheci a obra social de uma igreja e me dediquei a ajudar a missão deles, a recuperação de dependentes químicos. Minha família toda passou a ajudá-los. Assim o tempo passava e eu me sentia bem trabalhando nessa causa.

Mas não se pode mesmo confiar cegamente. Conheci uma pessoa com quem estabeleci uma verdadeira e sincera amizade, daquelas que você compartilha as situações difíceis da vida. E então veio nova decepção: ele me enganou, me roubou e eu não pude fazer nada porque ele é um homem poderoso.

Gostaria muito de dizer que acredito na justiça. Mas não posso. Fui muito injustiçada e maltratada e sequer pude compartilhar esses momentos com outras pessoas.

Mas acho que hoje voltei a acreditar que é possível ter uma vida melhor para mim e para as pessoas ao meu redor.

Não tenho do que reclamar. Se antes eu me achava feia, hoje sou modelo afro, faço ensaios fotográficos e dou aulas de dança. Tenho a capacidade de me reinventar: sou uma fênix que ressurge das cinzas.
Hoje aprendi que a justiça não vem de mim mas da vida, se eu fui julgada mal igual há vários casos, só cabe a mim não ser mais uma a julgar. O tempo é o juiz de qualquer injustiça.