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O escritor colombiano Álvaro Mutis é um daquelas celebridades da literatura aclamada pela crítica, cortejada pelos escritores, lida internacionalmente, mas que nunca de fato alcançou a popularidade reservada a muitos de seus contemporâneos da literatura latino americana — como é o caso do seu conterrâneo e amigo Gabriel Garcia Marquez. Mutis morreu no domingo, dia 22 de setembro, aos 90 anos, na cidade do México, onde morava desde 1954, apesar de ter nascido em Bogotá, Colômbia. Se não foi um escritor tão festejado pela mídia, na Colômbia, com certeza, seu talento sempre foi reconhecido — a ponto de o presidente colombiano, Juan Manuel Santos, interromper suas atribuições na reunião da ONU para enviar condolências públicas à família.

Foi um escritor de muitos recursos, produzindo obras poéticas e romances impregnadas de lirismo e força literária — protagonizados, muitas vezes, por um personagem recorrente, o gavieiro Maqroll. Em “A neve do Almirante”, Maqroll escreve um diário de páginas coloridas que conduz uma viagem pela Amazônia. “O poeta vive na prosa de Mutis”, diz a escritora Leuza Araújo, que conheceu a obra do escritor em 1995 e descobriu “todo o seu lirismo”. E destaca uma frase marcante do livro: “As mulheres nunca mentem. Das mais secretas dobras de seu corpo sempre brota a verdade. Acontece que nos foi dado lê-la com uma severidade a toda prova. Muitos nunca o conseguem e morrem no beco cego de seus sentidos.”

O personagem Maqroll é uma testemunha errante do tempo e do destino pelo qual Mutis revela o homem contemporâneo com uma “fervorosa vocação de felicidade constantemente traída, diariamente desviada e desembocando sempre na necessidade dos míseros fracassos”.

Não se pode dizer que Mutis era um fracasso. Ao contrário, foi um sobrevivente literário. Era filho de diplomata e morou boa parte da infância em Bruxelas, na Bélgica. Em 1956, ainda jovem, mudou-se para a cidade do México e lá permaneceu até sua morte — apesar de ter suas más experiências: foi acusado de fraude pela empresa americana Standard Oil, na qual era relações públicas, e passou 15 meses na prisão, por motivos até hoje pouco esclarecidos. Seu primeiro livro de poemas permaneceu apenas um dia nas livrarias de Bogotá. Era véspera de 9 de abil de 1948, data em que o candidato à presidência Jorge Eliécer Gaitán foi assassinado, provocando um caos generalizado no país.

Sua obra extensa sempre foi reconhecida pela excelência, na prosa ou na poesia. Um exemplo, não tão comum, de qualidade nos dois gêneros — o que lhe valeu reconhecimento internacional de peso. Foi contemplado com os prêmios literários Xavier Villaurrutia (1998), Príncipe das Astúrias às Letras (1997) e o Cervantes (2001).

A obra mais expressiva do seu trabalho poético é a reunião dos poemas escritos entre 1948 e 1988, “Summa de Magroll el Gaviero”, um convite ao leitor para “entrar em uma região criada como barreira contra a morte”, como definiu o poeta colombiano Juan Manuel Roca. Mas como diz um dos seus poemas: “Que te coja la muerte / con todos tus sueños intactos”,

 

Álvaro Mutis, por Leusa Araujo

Dois escritores entraram na minha vida por  indicação de Gabriel Garcia Marquez: Mercé Rodoreda, a catalã (Praça do Diamante) a quem Gabo chamou de “mulher invisível” dado a falta de notabilidade de sua escrita fora do território catalão; e o conterrâneo Álvaro Mutis, a quem dedicou o seu livro “O general no seu Labirinto”. Ganhei um exemplar em 1995 de “A neve do Almirante”, da minha amiga e roteirista Duca Rachid. Qual não foi a surpresa de descobrir um lirismo inusitado para um diário de bordo. O personagem recorrente do escritor, o gavieiro Maqroll, possuía um diário de páginas coloridas. Não me lembro os detalhes das corredeiras na viagem pela Amazônia, penso quantos nativos e  histórias surgiam na narrativa…  Mas hoje, ao saber de sua morte, fui buscar uma das frases encontradas nas paredes, no cimo da cordilheira – no capítulo “A neve do Almirante”. O poeta vive na prosa de Mutis: “As mulheres nunca mentem. Das mais secretas dobras de seu corpo sempre brota a verdade. Acontece que nos foi dado lê-la com uma severidade a toda prova. Muitos nunca o conseguem e morrem no beco cego de seus sentidos.”