Por Alice Moravia, de Nova York, EUA 

 

Papa_e_Dilma_poucas_palavras

 

O fato pode passar despercebido para a maioria dos brasileiros entusiasmados com a visita do Papa Francisco que se inicia nesta segunda-feira (22). Não passou despercebido por mim, que faço parte da sociedade americana (moro em Nova York) na qual há uma verdadeira obsessão em separar o público do privado.

A minha primeira surpresa foi com as críticas severas feitas à igreja católica devido aos  gastos com a Jornada Mundial da Juventude, comandada pelo Papa, estimados em 350 milhões de reais. Vale lembrar que a igreja  não impõe o evento a nenhuma cidade e não faz sorteio entre elas. As cidades se candidatam e ao fazerem, sabem que terão bônus (turismo e visibilidade) e ônus (gastos com segurança e produção). Se o Rio de Janeiro tivesse governantes no mínimo competentes e um planejamento financeiro, como qualquer empresa decente faz, teria chegado consciência de fato das condições financeiras e, diante dos números, fazer uma consulta pública para saber se a população apoiaria a candidatura à sede do evento.

A segunda surpresa foi constatar que mesmo sendo um evento religioso, o Papa, que está vindo em missão religiosa, foi recebido pela própria Dilma, que é presidente de um Estado laico (pelo menos na teoria). Entendo que o prefeito da cidade recepcione o Papa, já que é o “zelador” da sede de um evento de visibilidade internacional. Mas não entendo o motivo pelo qual a presidente rumou para o Rio de janeiro com uma comitiva gigantesca para receber o sumo pontífice da igreja católica em missão religiosa. O que fazia, por exemplo, Renan Calheiros, chefe de um dos poderes da república, figura público com notórios desvios éticos que fazem jus a uma excomunhão, no aeroporto internacional do Rio?

Quando, em 2010 a rainha Elizabeth II recebeu o Papa Bento XI na Inglaterra a missão foi óbvia para os britânicos: a rainha Elizabeth é, além de chefe de estado, chefe da igreja anglicana. O presidente da Itália foi o primeiro a ser recebido pelo papa Francisco por um motivo óbvio: o chefe do estado Italiano foi visitar o recém eleito chefe do estado do Vaticano que fica em no coração de Roma. A presidente Cristina Kirchner foi visitar o papa Francisco pelo motivo histórico: ela, chefe do estado argentino, foi visitar um cidadão argentino que foi eleito chefe do estado do vaticano e da igreja oficial da Argentina.

Aqui nos EUA, quando o presidente  Barack Obama foi eleito e a imprensa publicou que sua sogra se mudaria para a Casa Branca, a família Obama se apressou em anunciar que todas as despesas com a sogra seriam pagas por ele e pela primeira dama. Obama não é bonzinho, apenas se antecipou ao questionamento que americanos fariam, cumprindo sua obrigação — e não cumpri-la poderia lhe custar o mandato. Aqui, americano não paga despesas de parentes do presidente que não faça parte da primeira família, muito menos passeio de helicóptero de babás e de cachorrinha de governador de estado. Aqui, senador já perdeu o mandato e a vida pública por ter usado selo do congresso para enviar correspondência de campanha política. Aqui, Hilary Clinton pagou a conta da pizza que pediu por telefone para filha e as amigas. Aqui, o prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, um magnata das telecomunicações, não recebe salário e paga as despesas pessoais dele e da família (entendeu Sérgio Cabral?). Aos cofres públicos, ficaram os custos com a segurança da primeira família da cidade mais importante do mundo.

Vocês já se perguntaram quem paga as despesas pessoais da elegante e simpática mãe da presidente Dilma Rousseff que habita a residência oficial da republica junto com a filha?