2011 French Open - Day Nine

 

Em todo o jogo, os rituais são sempre os mesmos: antes de entrar na quadra, ajeita as garrafas de água, perfeitamente alinhadas ao seu pé direito, com o rótulo na mesma posição. Sempre entra com o pé direito na quadra, tomando o cuidado para não pisar nas faixas. Na hora do saque, limpa a faixa da quadra com o pé direito, bate a bola, às vezes até 70 vezes, e passa a mão no rosto. Além disso, ajeita a cueca Armani constantemente durante a partida — já houve quem contasse que o gesto foi repetido 175 vezes durante um jogo. Para quem conhece um pouco de tênis, não há dúvida: esse é Rafael Nadal, o mais bem sucedido tenista espanhol da atualidade.

Para muitos observadores, Nadal é um clássico portador de TOC — o Transtorno Obsessivo Compulsivo. Ele não admite publicamente. Para ele, esses gestos fazem parte de um ritual de concentração e alívio de ansiedade — nada que se pareça a um transtorno. Mas, por outro lado, o TOC é  tipicamente fruto da ansiedade. “O indivíduo precisa realizar certos rituais para aliviar a ansiedade”, diz a psicóloga Yara Garzuzi, especializada em terapia cognitiva comportamental indicada no tratamento de portadores de TOC. “Se não realiza o ritual que está acostumado, sofre de uma imensa angústia”.

Não quer dizer que as manias de Nadal sejam suficientes para identificá-lo como portador do transtorno. Atletas, principalmente os de alto nível, são, em geral, apegados à repetição de certos rituais, alguns estranhos até, que podem apenas representar gestos para adquirir concentração — e às vezes são apenas superstição.

Mas também há muitas celebridades do esporte que admitem sofrer do transtorno. O jogador de futebol David Beckham, por exemplo, é um deles. Recentemente, assumiu ser portador do transtorno à imprensa inglesa e contou em detalhes alguns de seus rituais — como, por exemplo, enfileirar todos os folhetos do quarto do hotel onde se hospeda, até “que fiquem perfeitos”, segundo declarou. “É muito angustiante. Eu preciso repetir o ritual sempre, se não sofro muito”, contou ele. Nadal, apesar de admitir repetir rituais exaustivamente, considera-os normal: “Não é algo que eu preciso fazer, mas quando faço significa que estou concentrado”, disse em entrevista publicada no site Nadal.com

É preciso levar em conta também que o TOC se manifesta de formas diferentes em cada indivíduo e que há cinco níveis, do sub-clínico ao extremo. Assim, muitos atletas podem estar num desses níveis e nem perceber que possuem o transtorno. “Mania de limpeza, de ordenamentos geométricos, de contagem com números e até colecionismo”, diz Yara, listando algumas das manias de um típico portador de TOC.

O conhecimento dessas manias pode, no entanto, criar suspeitas em qualquer um. Ou até provocar diagnósticos precipitados. O ginasta brasileiro Diego Hypólito está, aparentemente, longe de parecer um portador de TOC. Mas foi ele que assumiu publicamente o transtorno — por ter mania de ficar no banheiro quando o avião decola e por bater nos dentes três vezes sempre que pensa em algo ruim.

Bem diferente da nadadora canadense Kelly MacDonald. Assumiu ser portadora de TOC até porque não teve alternativa: antes de pular na água, gargarejava, dava tapinhas na perna e piscava no mesmo passo com que se aproximava da piscina. Tinha ataques de ansiedade que  só se aplacavam com esses rituais. Mas nem eles foram suficientes. Nos treinamentos para a  Olimpíada, teve um surto e foi obrigada a abandonar a equipe canadense. “Nada me satisfazia, estava sempre chorando”, disse ela, ao abandonar a competição. “Ela se despedaçou nesse processo para combater sua obsessão e não resistiu”, explicou o médico da equipe canadense.

Atletas de alto nível estão constantemente sujeitos à pressões — por tempos mais baixos, por índices melhores, por vitórias, por desempenho enfim. E por mais que estejam seguros e bem treinados, não é possível evitar a ansiedade. “A ansiedade é positiva, nos move para as conquistas”, diz Yara. Talvez isso explique a incidência do transtorno entre atletas célebres, aparentemente superior à média da população, estimada em 2,7%. Na verdade, esportistas de alto desempenho estão sempre numa fronteira entre o transtorno e a “normalidade” — e superar essa condição é o que explica, de certa forma, o sucesso que obtêm.