herzog

 

Era um sábado naquele 25 de outubro de 1975. Eu estudava biologia na Usp e, como em todos os sábados, tinha aula de física na Poli o dia inteiro. Na hora do almoço, subimos, eu, o Carlos e o Mão Fria, para o “nosso” bosque da Biologia, onde a gente comia um sanduba ao som de Genesis para aguentar o tranco. Isolados do mundo, aquilo era o nosso reduto de paz numa época em que havia guerra velada nas ruas, as paredes tinham ouvidos, qualquer um podia ser infiltrado até provar o contrário.O Carlos fabricava uma espécie de ácido lisérgico extraído de uma flor muito comum lá nos arredores da faculdade de biologia e ele mesmo consumia aquela droga e ficava loucão no bosque, sozinho, porque eu e o Mão Fria não tínhamos coragem de tomar aquele troço estranho. A gente estudava pra caramba. 10 horas por dia, todos os dias, e parecia não dar conta das matérias. O Mão Fria era um grande mergulhador (e tinha as mãos frias, dizia, de tanto mergulhar) e fazia planos de se especializar em Oceanografia — já fazia estágio no Instituto Oceonográfico lá “embaixo”, na Usp mesmo. Eu escrevia contos e tinha virado “celebridade” por ter sido premiado em três concursos de contos muito importantes. O primeiro, concedido por um jornal de Goaiânia que comemorava ter alcançado a tiragem de mil exemplares. O segundo foi conquistado num evento da Apae o que era uma honra razoável até eu descobrir que só havia dez candidatos ao premio. E o terceiro foi lá no prédio onde morava, entre os “jovens talentos da época”. O Carlos desapareceu misteriosamente três anos depois desta cena e havia rumores de que teria sido morto no sul da Bahia, tido como subversivo e guerrilheiro, o que não era verdade nem mentira. O Mão Fria escafedeu-se para a Inglaterra um ano depois daquele sábado e, em Oxford, terminou a faculdade de biologia, especializou-se em genética e até hoje está envolvido no projeto Genoma. Falei com ele esse ano e perguntei quando ele visitaria o Brasil. “Nunca mais volto nessa merda”, disse ele, curto e grosso. Eu tomei pau em física e morfologia vegetal, me apaixonei pela Laurinha, uma menina da Química, largamos a faculdade e fomos pra Europa,viajar de mochila e escrever livros como Rimbaud, Hemingway e John dos Passos. Dois anos depois eu voltei sem um puto no bolso e sem Laurinha, que se apaixonou por um colombiano e aderiu à seita Rosa Cruz em cuja sede, na Holanda, morou por anos até desaparecer no meu radar. Terminei a faculdade de Jornalismo e fugi de novo para os EUA, convidado para integrar um programa de escritores em Iowa. Fiquei lá um ano e tentei ficar para sempre, mas tive que voltarl.

Ah, naquele dia, no bosque, ouvindo Genesis, Julian, nosso colega, encontrou-nos e, lívido, trêmulo, anunciou: “O Herzog morreu, foi assassinado na Oban”.