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Ninguém gosta da derrota, ainda mais quando o vencedor empregou jogo sujo para conseguir a vitória. Prevalece um gosto amargo de quem teve que engolir alguma coisa muito indigesta, que haverá de fazer mal por algum tempo, até que seja eliminada de maneira desagradável e dolorida. Mais ainda: testemunhar esse político articulador de negociatas assumir a presidência, conduzindo o “meu” país por caminhos estranhos, é tão desesperador e humilhante quanto ser vítima de uma traição grotesca por parte de sua amada — ainda mais apoiada por alguns amigos, colegas, ex-namoradas e outros tantos conhecidos que inadvertidamente aderiram ao lado oposto, ao lado do “mal”.

Mas os prejuízos param por aí. E é possível já vislumbrar alguns “lucros” que foram produzidos por essa longa e inevitável armação golpista, preparada desde que a presidenta Dilma ganhou as eleições e consolidou o ódio oposicionista que marcou todo o processo do golpe. São os lucros da vitória que se escondem por trás da derrota.

O primeiro deles é a certeza de que existe uma movimentação homogênea disposta a se colocar incansavelmente contra o governo atual. Talvez não sejam 54 milhões e provavelmente são muito menos. Mas são. E incansáveis e resistentes ainda que hostilizados.  O governo atual não poderá nunca frequentar a zona de conforto.

O segundo lucro é a definição de todos aqueles senadores, deputados, juízes, procuradores e técnicos da máquina governamental que conspiraram claramente para promover o golpe. Estão marcados pelo resto da vida e dificilmente conseguirão o nosso perdão. Ganharam, todos, um sobrenome a mais: “golpistas”.

O terceiro lucro é de ordem pessoal. Não é saudável contaminar nosso ambiente social com uma avaliação maniqueísta de que uns são do nosso time e outros não. Mas ficará claro as diferenças que existem dentro de cada grupo, o que pode promover uma reflexão quase existencial sobre nossas prioridades. Em outras palavras, é sempre bom ver as pessoas com mais transparência.

É certo que veremos, também, uma série de medidas e decisões políticas que vão contrariar o que pensamos sobre justiça social, desenvolvimento, autonomia e identidade nacional e outros componentes importantes do nosso livre pensar — cuja liberdade pode também ser bastante ameaçada.

Mas a vitória, no meio dessa derrota, está assegurada.