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É verdade que os atletas brasileiros com chances de ganhar medalha sofrem uma pressão enorme. Dos torcedores, da imprensa, dos técnicos e dos próprios. Afinal, são poucos aqueles ditos “favoritos” para as dimensões da delegação brasileira, mais de 200 atletas, e recai sobre o ombro deles a responsabilidade de conseguir as medalhas que esperamos.

Talvez isso justifique o rol de desculpas esfarrapadas que os favoritos arquitetam quando perdem. As condições climáticas, por exemplo, estão fazendo um estrago com nossas pretensões de medalha. Fabiana Murer desistiu por causa do vento. Ela já havia perdido duas chances de superar os 4,55 m, uma marca fácil para ela. Não estava nada bem. E talvez ter atribuído ao vento tenha sido uma maneira de não assumir o fracasso total. Mas o torcedor queria que ela pusesse a “faca na boca” e fizesse aquela última tentativa, com vento, sem vento, do jeito que desse. Se perdesse, tudo bem. Bastava dizer “fui mal, tem gente melhor do que eu, Olimpíada é assim mesmo”. Ter desistido por causa do vento foi realmente muito frustrante. Se Isinbayeva tentou e só conseguiu o bronze, porque Fabiana não poderia tentar e perder?

Cielo também frustrou. Não por ter conseguido “apenas” a medalha de bronze. Ele foi poupado na prova 4×100 m durante a etapa de classificação. A ideia era se juntar ao time depois de classificado. Mas, sem ele, o time não se classificou e perdemos a chance de disputar mais uma medalha. Depois de fracassar nos 100 metros, Cielo justificou-se dizendo “estar cansado” após três tiros de 100 metros. Ora, todos os atletas tiveram que fazer três tiros de 100 metros.

Na verdade, Cielo deveria ter assumido sua verdadeira condição — e não há nada de errado nisso. As provas que ele disputou são duríssimas, há uma competitividade enorme e novos atletas, superpreparados, surgem todos os anos. Não há nada de errado ele não ser bicampeão olímpico. Errado é atribuir esse aparente “fracasso” a outros fatores.

O Brasil não vai fazer mais medalhas do que a média dos últimos jogos olímpicos. Não há nada que faça acreditar no contrário. E um dos motivos é que precisamos amadurecer essa relação com o esporte — deixar de atribuir a ele essa responsabilidade, essa cobrança, essa expectativa. E curtir, docemente, esse grande espetáculo esportivo que é a Olimpíada.