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Daí o casal de moradores de rua achou o dinheiro roubado e resolveu entregar tudo para a polícia, que devolveu aos donos. Muita gente ficou sabendo dessa história, ocorrida na zona leste de São Paulo, e elogiou a honestidade do casal — afinal, eram 17 mil reais, dinheiro que poderia mudar a vida de ambos.

O que mais me impressionou, no entanto, não foi a honestidade. Afinal, se eles tivessem ficado com o dinheiro, não seria exatamente desonesto — ou pelo menos, essa seria um assunto para discussões. Mas o desapego ao dinheiro, e ao que ele poderia proporcionar, é, de fato, uma revelação extraordinária.

Pensando bem, só mesmo mendigos são capazes de demonstrar esse tipo de desapego — e, claro, os budistas, os hippies, os eremitas e alguns caras da minha turma. Estamos imersos numa sociedade em que o dinheiro é o principal ingrediente da felicidade — embora, hipocritamente, diga-se o contrário. Aqueles que não pensam assim, são excluídos da sociedade — como são os mendigos — ou então estão em vias de embarcar para alguma montanha do Tibet e viver de água quente com manteiga.

Tudo parece errado. Em primeiro lugar, o conceito de felicidade. É um conceito criado, desenvolvido e executado pela classe média, como um objetivo de vida, talvez mais do que isso, um estilo de vida. Felicidade, nesse universo, é constituída de três elementos: segurança, conforto e estabilidade. Segurança material e física. Ou seja, dinheiro para pagar as contas e um apartamento num condomínio cercado de fios elétricos. Conforto, proporcionado por carros, restaurantes, bons lugares nas salas de cinema e colchões com garantia de dez anos. Estabilidade é a qualidade de nada mudar nunca: qualquer alteração desses fatores pode ser um problema dramático.

E o que proporciona essas qualidades da felicidade? O dinheiro claro. E não só isso. O dinheiro é o responsável por incluir o cidadão na sociedade e mantê-lo bem avaliado. Fique sem dinheiro e você não terá a companhia da sua mulher, o amor dos seus filhos, a cumplicidade dos seus amigos, a compreensão da sua família. Com dinheiro, você terá tudo isso e mais ainda: a tal felicidade.

Os mendigos não acreditam nisso e por isso são mendigos. Bom, não é bem assim, tem muito nego pirando por aí. No mais, o conceito de felicidade não poderia ser mais infeliz. E aí tem aqueles que atribuem felicidade ao amor, por exemplo. Amor é amor, não tem nada a ver com felicidade. Mas isso é tema para muitos outros posts.