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Eliana Paiva passou décadas sem contar nada a respeito dos dias em que passou presa, quando tinha apenas 15 anos. “Acho que esqueci o que aconteceu, deixei pra lá, sabe?”, diz ela. Era janeiro de 1971 e seu pai, Rubens Paiva, deputado cassado, tinha sido preso no dia anterior. Era um engenheiro civil da classe média paulistana, socialista, jovem, empreendedor e bon vivant. Mas uma carta e uma amizade foram suficientes para ser considerado suspeito, preso e espancado até a morte. Filha e pai não se encontraram na prisão. Aliás, nunca mais se viram. Provavelmente, ele morreu naquele mesmo dia em que ela foi presa, vítima de torturas. Foi dado como desaparecido e seus restos mortais nunca foram encontrados. “Só recentemente é que comecei a contar algumas coisas que eu não comentava nem para a minha família”, diz ela. “Ninguém soube da minha prisão, foi um segredo que guardei por 40 anos e que só revelei na Comissão da Verdade”. Nessa entrevista exclusiva, Eliana recupera todas as suas lembranças daqueles dias.

Como era o clima na família antes da prisão do seu pai?

A gente não tinha muitas preocupações. Meu pai, que era deputado federal, esteva na primeira lista de cassados, mas, apesar de estar ligado ao partido socialista, era um burguês, de 34 anos, com cinco filhos, engenheiro civil. Nem ele, nem seus amigos, achavam que a repressão ficaria tão séria. Todos eles, intelectuais de esquerda, como o Darcy Ribeiro, o Valdir Pires e o Luís Fernando Bocayuva achavam que os militares eram gorilas, burros, ignorantes, não acreditavam no poder deles. Eram os milicos contra a intelectualidades brasileira. Achavam que isso não ia adiante. Ele se divertia muito, tinha bom humor, levava tudo na brincadeira. Era um grupo muito bom, uma época das mais férteis da cultura brasileira.

Mas seu pai exilou-se antes de ser preso…

Sim, depois do golpe, ele primeiro ajudou o Valdir Pires e o Darcy Ribeiro a embarcaram para fora. Ele tinha um inteligência logística espetacular e todo mundo recorria a ele para fazer essas coisas. Mas quando chegou a hora de ele embarcar, os militares já sabiam e estavam esperando ele no aeroporto. Daí começaram a atirar em plena pista, mas ele conseguiu fugir e foi para a embaixada da Iugoslávia.

Isso ocorreu em Brasília?

Sim. Nós tínhamos um apartamento funcional, onde eu ia de vez em quando passear. Ia fazer turismo mesmo. Para mim, não havia o menor clima ruim. Era uma garota, estudante, curtindo Brasília

E na embaixada da Iugoslávia, o que aconteceu?

A embaixada era uma construção inacabada e nem o embaixador ficava lá. Quem ficava eram os exilados. Meu pai chegou lá e pôs ordem na casa. Fez tabelas com horários para tudo. Tem até uma história que proibiram as mulheres das famílias entrar na embaixada porque eles jogavam vôlei pelados. Eles faziam a festa, do tipo a vida é boa. Daí eles pegaram um vapor e foram para Iugoslávia, onde foram bem recebidos. Meu pai ficou um mês lá e foi para Paris, viver a vida. Também foi para a Inglaterra, fazer um curso sobre plantação de bananas.

Bananas?

É. Ele era engenheiro civil, mas tinha sido cassado. Então achava que o futuro dele era se recolher na fazendo do meu avô e plantar bananas para viver. Ele tinha muita capacidade de trabalho e sabia disso, não ficava assustado com a vida. Ficou oito, nove meses no exílio

E por que ele voltou?

Por que quis, sei lá. Ele tinha passaporte diplomático ainda, por ser deputado, e não tinha sido confiscado. Ainda havia um certo respeito. Meu pai tinha dinheiro, tinha posses, não era suspeito. Daí ele pegou um avião para Buenos Aires e desceu no Rio. Naquela época os aviões paravam no meio da pista, era muita bagunça, não tinha controle. E ele apareceu em casa, sem avisar, dando um susto na minha mãe.

E você, o que pensou de tudo isso?

Eu tinha nove anos. Estudava no Sion e era sócia do Paulistano. Tinha a minha vidinha. Papai tinha dinheiro de família. Nada parecia muito diferente. Depois que ele voltou para o Brasil, nós mudamos para o Rio, em 1965, onde estavam todos os amigos dele. Lá, a vida continuou, eu virei adolescente. Adorava ler o Pasquim, tinha ficado três meses nos EUA, onde vi Hair e Easy Rider, chorava ouvindo Joan Baez, queria cortar meus peitos que estavam crescendo e doía…E minha casa se transformou um centro dos intelectuais do Rio. Bebiam, fumavam charutos e riam muito. Meu pai adorava rir, contar piadas e se divertir. Ninguém estava nem aí com os militares. Mas a verdade é que àquelas alturas a casa devia estar sendo vigiada.

E então veio o AI-5…?

É… mas mesmo assim, eles se divertiram. Lembro que meu pai e o Valdir Pires foram para praia no dia do AI-5. A marinha tinha colocado todas as fragatas na costa de Ipanema e Leblon. Mas eles conheciam aqueles navios. Eram velhos, caindo aos pedaços. Lembro de ver os dois rolando de rir, dizendo “as caldeiras vão explodir, essas merdas estão sem manutenção há 50 anos”. Inventaram uma coisa para se divertir no dia do AI -5. Ficaram assustados, sim, perceberam que a coisa estava ficando sério, mas nem tanto.

Ele foi preso só janeiro de 71. O que aconteceu nesse tempo?

Aconteceu que meu tio mais velho teve câncer no cérebro e foi se tratar nos Estados Unidos. Daí meu pai foi visita-lo e, na volta, não resistiu e passou pelo Chile. Foi conhecer o socialismo de Allende e visitar os brasileiros exilados. Distribuiu dinheiro para todo mundo. E fez contato com a Helena Bocayuva, filha do Luís Fernando, que era do MR8 e queria voltar para o Brasil. Mas ele segurou ela lá. Depois, a Helena mandou uma carta pela Cecília Viveiro de Casto em que havia um manifesto do MR8 e o endereço do meu pai. Nessa altura o SNI já estava sendo montado e já sabiam de muita coisa.

Foi por causa dessa carta que ele foi preso?

Provavelmente. E também porque ele tinha um amigo comunista, o Adriano (codinome de Carlos Alberto Muniz, militante do MR8).

Ele estava desconfiando que seria preso?

Ele estava tenso. Já estavam acontecendo os sequestros de embaixadores, estavam soltando presos e ele sabia que tudo podia acontecer. Só achava que não aconteceria com ele. Não tinha motivos. Ele achava que, se você não tem culpa no cartório, nada pode acontecer.

E como foi no dia da prisão?

Foi em 20 de janeiro de 1971, mais ou menos às duas horas da tarde. Foi levado lá para o DOI-Codi, na Barão de Mesquita. Ele chegou e já entrou na porrada. Ficavam falando “quero ver agora, seu deputadozinho de merda”. Ele era briguento, enfrentava as pessoas e começou a discutir com os caras, a exigir seus direitos. Daí é que os caras bateram mesmo. O cara que bateu nele gostava de bater. Depois largaram ele num canto, pelado, agonizando, e quando levaram ele ao médico, já não tinha mais o que fazer. Pelas conversas que tive com amigos médicos, provavelmente ele teve uma hemorragia interna. Morreu no dia seguinte ao que foi preso, muito provavelmente.

Você já tinha presa nesse momento?

Já. Eu e minha mãe fomos presas no dia seguinte e alguma coisa me diz, uma sensação inexplicável, que ele morreu as cinco horas da tarde desse dia, 21 de janeiro.

O que aconteceu com você no dia da prisão dele?

No dia que meu pai foi preso, ficamos todos em prisão domiciliar. A casa ficou cheia de militares à paisana, gente estranha, tosca. Eu estava na praia, porque era férias, e quando voltei, minha mãe me chamou, muito assustada, e falou para eu sair e ligar para o meu tio, que era advogado. Eu saí, dizendo que ia jogar vôlei, fazia parte da equipe do Botafogo. É estranho, de algumas coisas não lembro, acho que apaguei da memória. Mas, daí eu fui na casa de um amigo, liguei para o meu tio e fiquei dando voltar em torno da minha casa. Quando entrei, um cara, um militar, do tamanho de um armário, veio tirar satisfação comigo, segurando um cabo elétrico na mão, ameaçador. Daí eu falei: “vamos conversar, senta aqui comigo, o que está acontecendo?” (rindo). Eu tinha só 15 anos. Pode?

E depois?

Não lembro de mais nada. Lembro só no dia seguinte, quando minha mãe me acordou para dizer que a gente foi convocada para prestar depoimento. Escolhi uma roupa que me cobria inteira, uma túnica preta, porque eu estava com medo. Essa roupa eu joguei fora porque tinha cheiro da prisão.

Vocês foram encapuzada?

Sim, fomos. Entramos num fusca e lá perto do Maracanã fizeram a gente colocar o capuz, um troço fedido, devia ter sido usado por muita gente. Fiquei encapuzada a maior parte do tempo na prisão.

E lá, o que aconteceu?

Fui separada da minha mãe e me revistaram inteirinha. Inteirinha mesmo, sem o menor escrúpulo e ainda por cima por um homem. Daí me puseram num corredor, ainda de capuz, sentada no chão. Todo mundo que passava me dava um coque na cabeça, mexia nos meus peitos, me chamava de comunista, essas coisas. Eu nunca entrei na leitura da história. Nunca entendi direito o que acontecia.

Você foi interrogada?

Três vezes. No meio da tarde fui interrogada numa sala minúscula por um sujeito bastante grosseiro, gordo e peludo, extremamente violento, que foi me agredindo, fazendo perguntas sobre amigos do meu pai. “Teu pai é um grande comunista”, ele falava. “Não sei se ele é um grande comunista, acho que ele nunca leu Marx”, eu respondia. De repente ele diz que eu também era comunista. E mostra o trabalho que fiz sobre a Primavera de Praga. Era um trabalho escolar, do primeiro colegial. Eu caprichei, fiz pesquisa, era um bom trabalho. Mas…era sobre um fato que aparecia direto na imprensa e não tinha nada de comunista. Acho que foi isso que motivou minha prisão.

E depois, o que aconteceu?

Daí entrou um militar à paisana na sala e disse: “Cirurgião, nós temos um trabalho para você”. Cirurgião era como chamavam o torturador que me interrogava. Ele estava sendo convocado para interrogar algum infeliz. Me mandaram de volta para o corredor e eu fiquei ali, encapuzada, ouvindo a tortura nas outras salas. Ouvia berros: “parem com isso, pelo amor de Deus” gritavam. Para mim foi um horror ouvir aquilo. A primeira vez que contei isso, não parava de chorar. Ouvir tortura, vedada num corredor, foi a coisa mais enlouquecedora do mundo. Eu fiquei meio estática, pensando “agora sei onde estou”. Duas horas depois, fui a outro interrogatório. Desta vez com um sujeito um pouco mais velho, mais sério, mais sábio. Ele me perguntou como eu estava e daí baixou o Rubens Paiva. Comecei a reclamar e a ameaçar, dizendo que tinha apenas 15 anos e que eles não podiam me prender. Estão me apalpando no corredor, estou ouvindo torturas, tem uns meninos sendo maltratados no corredor, eu falava. Acho que nessa hora, meu pai já estava agonizando, porque amainou o tom, eles deviam estar assustados.

E a sua mãe, onde estava?

Quando eu saí desse segundo interrogatório, tiraram o meu capuz e colocaram uma venda. Eu conseguia ver alguma coisa por baixo. E vi minha mãe entrando na sala da qual eu estava saindo. Falei com ela. Ela perguntou como eu estava, de uma maneira muito doce, nunca vou esquecer. Foi a única vez que eu a encontrei. Ela ficou presa onze dias. Nos três primeiros, ficou estática na cama, sem reação, porque sua filha tinha sido presa também.

Daí você voltou para o corredor?

Isso mesmo. Desta vez, eu conseguia ver por baixo, porque estava só de venda. Eu chorava compulsivamente. Conseguia identificar as pessoas sendo arrastadas, os sapatos. Depois me levaram para uma cela, tiraram a venda.

Você ficou sabendo que seu pai tinha morrido?

Praticamente sim. Tinha uns guardinhas no corredor, muito jovens, que ficaram me dando mole, porque, imagina, eu tinha 15 anos, era uma garota bem bonita. Daí eles me contaram que meu pai estava muito mal mesmo, que estava agonizando.

Você ainda teve um terceiro interrogatório?

Tive. Mas foi de madrugada, não lembro de nada, eu estava morrendo de sono. Mas eles estavam recuando naquele momento, papai já devia estar morto.

E quando você foi solta?

No dia seguinte. Lembrou que amanheceu com música do Roberto Carlos, “Jesus Cristo”. Daí me chamaram para ir embora, me deram a bolsa da minha mãe. Eu não quis ir. Queria ir com a minha mãe. Mas eles insistiram e eu estava louca para sair daquele lugar. Me puseram num fusquinha e me largaram na praça Saenz Pena.

Você voltou para casa?

Liguei para uns amigos do meu pai e eles me levaram. Depois quando minha mãe saiu, fomos para Santos na casa do meu avô e passamos a morar lá. Esperando que meu pai aparecesse. Na verdade, quem esperava era os meus avós. Nós já tínhamos certeza de que ele estava morto.

E o corpo do seu pai nunca apareceu…

Nunca. Andaram contando umas histórias de que o corpo foi jogado no mar, depois de ter sido enterrado em vários lugares. (segundo o depoimento do coronel reformado Paulo Malhães, desmentido em seguida por ele mesmo) Para mim, é tudo fantasia. Acho que colocaram o corpo numa vala qualquer e esqueceram.

É importante para você encontrar o corpo?

Acho que sim. Quero ter a oportunidade de fazer o luto do meu pai.

Como esses eventos influenciaram na vida da sua mãe e na sua?

Minha mãe foi forte, entrou para a faculdade de direito e se tornou uma advogada brilhante. Mas ela me disse certa vez que passou os três anos seguintes pensando em se matar. Eu acho que nunca superei totalmente. Tenho problemas profissionais, não consigo me organizar. Já fui professora da USP mas não consegui manter o cargo. Tenho uma característica comum a todos os que foram presos na infância e adolescência: não enxergo os limites da vida. Parece que sou incapaz de respeitar as hierarquias. É confuso.

Por que você demorou tanto para contar essa história?

Acho que esqueci o que aconteceu, deixei pra lá, sabe? Puxa, eu tinha 15 anos, precisava viver a vida e minha história, a minha prisão, a morte do meu pai não interessava a ninguém dos meus amigos. E se eu lembrava, tinha ataques de choro. Houve uma vez em que tive um estresse muito grande e comecei a delirar e tudo o que eu via eram cenas do holocausto, da morte dos judeus. Eu não sou judia. Não entendi isso. Deve ter alguma ligação com o que eu passei.