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Para a escritora e neonatologista Fátima Parente vivemos uma grande contradição: com tanta tecnologia da comunicação acessível a todos, muitas adolescentes ainda engravidam por desinformação e despreparo  — e não estão preparadas para entender que gravidez é um assunto muito sério. Próxima dessa questão devido à sua atividade de médica, Fátima decidiu abordá-la de maneira direta e precisa no seu novo livro “Cacilda” — a história de uma adolescente que tem uma gravidez indesejada.

Mãe de Clara, uma adolescente, e sempre em contato com muitas  mães jovens, “Cacilda” mostra, de forma sutil, que a gravidez na adolescência é vivida de múltiplas formas  e pode ameaçar a vivência dessa fase da vida tão importante e decisiva.

Fátima nasceu em uma pequena fazenda em Lagoa Redonda, no interior do Ceará, onde viveu a infância, cheia de histórias de árvores, razão do seu primeiro livro: “Na Sombra de todas as árvores” – vencedor na modalidade de Contos e Crônicas I festival de Talentos da SES/SP.

Aqui, ela aborda, nessa entrevista exclusiva, as principais questões relacionadas ao tema do livro.

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Por que você se interessou em escrever sobre a gravidez precoce?

Observo que tem aumentado a incidência de mães muito jovens e com riscos vinculados — assédio,abortamento,  desligamento da escola, problemas familiares, gravidez indesejada,  doenças contagiosas. Fora isso, algo me intriga, pois vivemos no mundo da comunicação, com tanta tecnologia, mas ainda  muitas meninas  engravidam por desinformação e  despreparo. Elas precisam entender melhor esse assunto, se prevenirem e se convencerem que gravidez  é coisa séria. Por tudo que observo, e mais, resolvi criar a personagem Cacilda, protagonista do livro, que representa tudo isso e mostra o quanto a menina está vulnerável a ingressar na vida adulta precocemente. Assim, o palco desse livro é a maternidade no início da adolescência.

A gravidez na adolescência é um problema de saúde pública ou social? Ou é uma questão individual apenas?

Partindo -se do pressuposto de que uma  adolescente é mais  suscetível a ter problemas de saúde quando engravida — pela sua imaturidade fisiológica para manter uma gestação, e psicológica, para criar um filho — é claro que é um problema social e de  saúde pública  também.  Ela é mais suscetível a ter mais complicações gestacionais,  infeções, problemas placentários, hipertensão e parto prematuro, além das doenças sexualmente transmissíveis e transtornos mentais. Também pode ser  uma questão individual, quando a gravidez não é desejada, não é planejada e não é aceita, atrapalhando o seu crescimento e desenvolvimento, a relação com a família, seus sonhos,  com consequências  biológicas, psicológicas e sociais  negativas…Além de  que o aborto provocado e suas complicações são mais prováveis em adolescentes.

Como e quando a família deve abordar questões da sexualidade e suas consequências com seus filhos e filhas?

Assim como os pais devem  ensinar já na infância que menino é diferente de menina, também devem abordar questões da sexualidade e suas consequências já nessa fase.  Como estratégia,devem ficar atentos à curiosidade da criança, aos questionamentos e  aproveitar o momento para abordar —  sempre de uma forma muito natural e mostrando responsabilidade.Ensina que menina é diferente de menino,que menina menstrua e que  pode engravidar cedo se não se cuidar, que existe meios para evitar a gravidez, que os meninos  precisam respeitar as meninas, que ambos têm que ter cuidado com as insinuações e assédios, e também devem contar casos de gravidez precoce que poderiam ter sido prevenidas e evitadas, para ficarem pensando.É muito tarde se deixarmos para falar sobre sexo, gravidez e prevenção quando inicia a adolescência ou quando começam a paquerar. Além da família,a escola  deve cumprir o seu papel na corresponsabilidade da educação.

O relacionamento sexual na adolescência está de alguma forma ligado à exclusão?

Deve-se ligar sexualidade com exclusão quando envolve riscos para o(a) adolescente, como é o caso de assédio domiciliar, familiar, ou algo similar. O adolescente tem o direito ao sexo saudável, seguro e sem riscos,

Para quem se destina o Cacilda? Qual é o público do livro?

Embora seja um romance infanto-juvenil, o livro é para leitores de todas as idades, e direcionado para adolescentes e  adultos.

Você de alguma forma fez algum juízo (de certo ou errado) a respeito de seus personagens, incluindo o comportamento da família (mãe, pai e avó).

Já no primeiro capítulo existe a expectativa da família em relação ao sexo do filho, vindo a surpresa da menina não esperada,  que viveu a infância e a adolescência diferentemente de todas as irmãs, inclusive sofrendo bullyng domiciliar. Analisando a trajetória da vida de Cacilda,o leitor entende que a gravidez da mãe de Cacilda  foi desejada apenas  para o sexo masculino.

Tanto os pais quanto a avó pecaram em dar liberdade para uma adolescente sem a vigilância. Vieram saber do comportamento errôneo da filha/neta por terceiros. Além de que, Cacilda era uma adolescente, e nunca tinha sido orientada sobre contraceptivos. Tem coisa que a sociedade inteira testemunha e que os últimos a saberem são os pais.

O seu primeiro livro “Na Sombra de todas as árvores” é uma lembrança familiar, poética, quase lírica. Já o “Cacilda” aborda um tema complexo e sempre atual. Como você define seus caminhos de escritora?

Meu primeiro livro, embora seja uma lembrança familiar, o palco é a infância – uma reflexão sobre a  infância atual, vivida sem liberdade, aprisionada,em tempos de tecnologias, shoppings e em volta de  grandes prédios. Pulei da infância para adolescência com o segundo livro,e, no meio de uma coisa e outra, criei a personagem Cacilda, e com ela vou falando das questões cruciais sobre  gravidez precoce. Minha pretensão, daqui pra frente, é dar palestas , fazer bate papos em escolas, e continuar escrevendo  para adolescentes, principalmente temas simples que  exerçam impacto sobre suas escolhas.

Como a prática da medicina, e de sua especialidade médica influencia a sua atividade de escritora?

Convivo com mães adolescentes de todas as idades e medicina sem diálogo não existe. Converso, escuto as mães, as avós, os acompanhantes…não só as queixas como as histórias pessoais. Isso é um gancho para quem gosta de criar. Algumas histórias do livro Cacilda são reais, como a de uma mãe que era toda pintada, fugia dos amigos da escola para não enfrentar situações emocionais adversa, por ser vítima de bullyng.