carnaval

A proliferação dos blocos de carnaval em São Paulo tem sido a melhor notícia, nos últimos dois ou três anos, para a cidade. O paulistano se revelou: adora se divertir e brincar no Carnaval. Mas está apenas aprendendo a curtir.

Ainda desajeitado, sai atrás dos blocos na cara e na coragem, disposto a aproveitar cada segundo do evento na mais plena felicidade, etílica ou não. Para quem, como eu, frequentou duas dezenas de vezes,  por motivos familiares, o carnaval de rua de Salvador e do Rio de Janeiro, é admirável a animação do paulistano por ser tão desajeitado para a festa e, ao mesmo tempo, ter uma graça especial, motivada por uma certa inocência e uma profunda euforia. O paulistano parece muito com o gringo que entra pela primeira vez no carnaval da Bahia: não sabe como se portar, mas adora.

O paulistano, aquele neófito do carnaval, não sabe dançar. Tenta, esforçadamente. A menina ensaia uma espécie de frevo alucinado, se atrapalha no passo e quase cai de cara no chão. O grandão, vestido de drácula, manda ver no samba, mas na verdade repete movimentos do aquecimento que faz na academia. A guria, ligada no 220, leva um bambolê para rebolar. A outra, dança empinando a derriere, como se estivesse num baile funk. Um grupo,abraçado em linha, faz um número de Can-Can. Quase todos de celular na mão tiram fotos, fazem vídeos e se divertem com as selfies

Mas cantam, todos cantam. Principalmente as velhas marcinhas, insuperáveis. Mas na verdade não sabem a letra: ” foi a Amélia que caiu no solo…”, em vez de “foi a Camélia que caiu do galho” e os politicamente corretos capricham na correção: “deixa o cabelo dele” em vez de “corta o cabelo dele”. Carnaval politicamente correto só mesmo em São Paulo: não jogam lixo nas ruas, entregam as latas para os catadores, jogam confetes anti-alérgicos. E sem sacanagem: enquanto no Rio e em Salvador as pessoas se agarram o tempo todo, aqui a menina chama o rapaz para dançar, mas avisa “sem mãozinha, só dançar”. Isso porque ele queria apenas segurar na mão dela. E se alguém assiste a passagem do bloco de uma janela qualquer, o cortejo todo pára, acena, tira fotos, se exalta, grita, comemora como se fosse um gol. Mas também cobra o preço justo da manifestação: um “fora Temer” uníssono, incorpado, consistente.

Esses admiráveis paulistanos, dos quais orgulhosamente faço parte.