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Os irmãos Jorge, Joelson e James com seus pais, Coronel João e Lalu

Hoje, 10 de agosto, é um dia muito especial para a literatura brasileira e, muito mais, para mim. Nessa data, há exatos cem anos, em 1912, nasceu Jorge Amado no remoto município de Ferradas, próximo a Ilhéus, na costa sul da Bahia. A minha existência também começou aí: em 1948, já um escritor famoso e respeitado, Jorge Amado foi eleito deputado federal pelo Partido Comunista e veio morar em São Paulo. Aqui, contratou como assistente uma moça sofisticada, judia, com trânsito na sociedade paulistana, socióloga e poliglota: Fanny Rechulski. O irmão de Jorge, Joelson Amado, médico formado e residente no Rio de Janeiro, veio a São Paulo em visita incerta e descomprometida. Fanny e Joelson se apaixonaram, se casaram e foram morar no Rio de Janeiro. Oito anos depois, filho caçula do casal, eu nasci.

Tio Jorge teve uma intensa participação na nossa vida familiar, principalmente nos meus tempos de criança. Tio generoso, divertido, safado, criativo, sempre disponível às maluquices das crianças, marcou minha vida profundamente. Depois que viemos morar em São Paulo, ele vinha nos visitar, juntamente com tia Zélia, e não raro ocupava minha cama, fazendo-me dormir na sala. Eu tinha o direito de não gostar, certo? Mas eram momentos tão iluminados e divertidos, e sua participação em minha vida tão generosa e agradável, que eu não via a hora de ele nos visitar.

Algumas das lembranças mais íntimas que tenho do meu relacionamento com ele estão descritas na matéria que fiz com exclusividade para a edição de agosto da revista Alfa. Não é correto eu reproduzir aqui. São histórias curiosas que refletem a personalidade intensa do autor genial, extremamente talentoso e carismático.

Mas talvez o mais importante dessa matéria foi a possibilidade que tive de mostrar como Jorge Amado foi um tio inesquecível — “o melhor do mundo”, como digo no texto. Generoso , não apenas com a família. Mas com seu povo, os brasileiros e, principalmente, os baianos. A vida inteira defendeu, sem arrefecer, as causas sociais, buscando consolidar a identidade da Bahia — o que conseguiu de maneira brilhante. Foi um comunista idealista porque acreditava ser essa a única via para estabelecer uma democracia legítima, não só política, mas, também, social. Se, mais tarde, criticou o comunismo soviético e chinês, nunca, no entanto, abandonou a causa socialista — e morreu acreditando nela. E tudo isso por um só motivo: por acreditar na justiça social e acreditar na humanidade — o que é muito raro hoje em dia.

Não foi um homem rico. Viveu confortavelmente como um legítimo escritor, mas foi modesto em suas aspirações econômicas. Era amado pelos amigos e de uma lealdade e fidelidade exemplar. A relação que tinha com meu pai, e de resto com toda a família, era de grande intimidade e afeição — que, aliás, também compartilhei intensamente.

Cem anos se passaram do seu nascimento e agradeço a possiblidade de ter esse espaço para não só lembrar do escritor  genial que foi, mas também para mostrar um pouco da sua intimidade e do exemplo de ser humano que permaneceu em mim  — e, de certa forma, em
todos os leitores dos seus livros.