Por Hector Bisi, de Paris  hectorbisi@hotmail.com

ùltimo_tango_em_Paris_poucas_palavras

 

1. Celular em cima de mesa de restaurante em Paris? Nananinanão. Aqui almoço é almoço, jantar é jantar e gente cafona é gente cafona. A comida merece respeito. Seja num bistronomique, com comida boa e barata, seja num restaurante com estrelas do Guia Michelin.

2. Na verdade, aqui não se fala muito ao celular. Todo mundo envia textô. E como li num livro, não lembro bem o nome, um desses guias moderninhos de como se tornar parisiense, as francesas gostam mesmo é de receber um sextô.

3. Toda vez que venho à cidade passo pela loja de brinquedos antigos escondida na pequena Rue Saint Victor, perto da Rue Monge, no 5éme arrondissement, ah não, até dizer nome de bairro em francês é outra coisa, cinquième!, arrondissement!,  no Brasil o que chega mais perto é o Leblon e… e…., então penso que não, desta vez ele não vai estar lá. Está. Da vitrine cheia de trenzinhos de ferro, vejo o velho monsieur passar as tardes e os meses e os anos esperando alguém entrar, ali, misturado aos brinquedos que abandonamos quando viramos gente grande, ali, vivendo no passado, até que ele mesmo se torne parte desse passado.

4. Charlène tem os dois dentes da frente separados por uma fresta. Charlène tem gap teeth, diastema, essas palavras não te merecem Charlène, você tem dents du bonheur, dentes da felicidade, muito melhor assim. Você tem os dentes da moda, como as modelos Lara Stone, Georgia Jagger e Lauren Hutton. Como Vanessa Paradis. Viens dans le quartier voir le paradis, MC Solaar fez essa música pra você?, pra você ver o paraíso do seu quarteirão da Rue Monge?, não?, deveria. Você e seus dentes têm tudo pra fazer um homem feliz, Charlène.

5. Pego a linha 6 do metrô, a única que tem um trecho na superfície, e desço perto da Pont de Bir-Hakeim. Vou até o nº1, Rue de l’Alboni. Fico olhando um tempão para o prédio onde Bertolucci filmou O Último Tango em Paris, o  apartamento era no primeiro andar, acho. Atravesso a rua ao lado e sento numa mesa do Eiffel Bar logo na esquina, Maria Schneider veio telefonar aqui numa das primeiras cenas. Uma novinha passa, olha pra mim e eu aceno. Ela acena de volta, subindo os primeiros degraus de uma escadaria. Vou até ela e pergunto se é francesa, ela fica vermelha, não sabe se vai, fica, vai porque a amiga  chama. Marlon Brando estava por lá e abençoou a cena.