Por Hector Bisi, de Paris (hectorbisi@hotmail.com)

 

Anna_Dello_Russo_poucas_palavras

Ana!, a fotógrafa chama, Ana!, Ana!, a fotógrafa implora, e Ana a ignora, não vira pra trás e dá a foto, não pode ser fácil assim. Ana é Ana Dello Russo, editora de moda da Vogue Japão, que junto com as editoras das Vogues América, França e Itália são as fodonas do mundo da moda, como qualquer um sabe, você não sabe?, você é démodé!, espera, démodé ficou démodé, melhor usar out of fashion, espera, mundo da moda é tão clichê, galáxia, galáxia da moda é per-fei-to, estou na saída do show del maestro Valentino no Jardin des Tuileries e preciso atualizar meu vocabulário. Show, é assim que se fala, dizer desfile é tão…tão… pobrinho. Então Ana, magra como as modelos, alta como as modelos, chique e carnavalesca como só ela, vai embora com seu vestido azul e branco que de tão curto deve ter sido comprado numa loja para bebês. Maison de alta costura, bien sûr.

Ana se vai por um tapete branco colocado no caminho da tenda onde acontece o show até o portão da Place de la Concorde, praça que já foi o centro do mundo séculos antes de Ana existir. Tapete vermelho é para Hollywood, dear, o branco não destoa da terra e das pedrinhas do chão das Tulherias, deixa tudo em um tom minimalista, está ali mas não está, e ao contrário de LA não há nenhuma limusine esperando os convidados, os fashionistas vão embora a pé até a Concorde e lá é outra história, se pegam um taxi, bicicleta ou um Aston Martin, nenhum fotógrafo se importa.

O défilé de celebridades, fashionistas e modelos continua, humm, não é show que se fala?, tá bom, estamos em Paris, défilé também pode. Tatiana Santo Domingo, mulher do príncipe de Mônaco. Ciara, cantora americana que eu nunca ouvi falar mas pela quantidade de acessórios, quer dizer, seguranças, é muito mais famosa do que muita gente famosa. Olívia Palermo, a super e mega e rica e intergaláctica it girl que começou sua vida de super e mega e rica e intergaláctica it girl mandando emails para a alta sociedade de New York pedindo para ser convidada para as festas, é o que dizem a lenda fashion, a inveja e a Wikipedia. As magrelas que desfilaram, todas usando o mesmo rosto, que só muda de expressão quando veem alguma câmera. E Cara. A modelo do momento, o rosto do momento, as sobrancelhas do momento. Começou a 3ª Guerra Mundial?, parece, pela correria e gritos, mas é só uma garota inglesa de 21 anos que acabou de fazer seu trabalho e tenta ir pra casa jogar PlayStation ou colocar seu jeans na máquina de lavar. Mademoiselle Delevigne tenta escapar dos fotógrafos indo na direção oposta ao do tapete branco mas são as abelhas que produzem o mel, fazer o quê? Mais gritos, correria, desmaios, desmaios?, não, isso não teve, é só pra colocar um pouco mais de drama na história. Estou perto do tapete branco e da equipe de uma revista de moda brasileira. É a jornalista que me conta o motivo da confusão, enquanto outro membro da equipe vigia as câmeras, estamos em Paris mas nunca se sabe.

No tapete branco qualquer desconhecido deixa de ser anônimo. Só precisa acertar no look. Ou errar muito, usar alguma coisa bizarra, chapéu em forma de pata de elefante, sei lá, então as abelhas enlouquecem e clicam, clicam e clicam, esse aí tem estilo, essa aí deve ser alguém. Vejo vários convidados assim, em seu momento Andy Warhol, mas é Fellini quem veio. Ele sempre vem a Paris na semana de moda, mesmo depois de morto.
O circo tem que continuar.

Um detalhe. A tenda do show se chama Espace Ephémère. Será de propósito?, uma crítica sutil à frivolidade e ao efêmero da moda?, ah, a mania que os franceses têm de pensar. Quanto às roupas criadas pelo maestro Valentino eu não sei, não vi o show, devem ter sido maravilhosas. Mas quem quer saber?