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Frequentemente me pedem indicações de livros e autores, mas nem sempre consigo agradar. Os novos tempos exigem leituras rápidas, de emoções intensas e se possível com muito erotismo.
Pensando nisso, achei o autor ideal — um vibrante escritor que esteve à frente do seu tempo, pleno de ousadia literária, transformador e causador e que rompeu padrões ao escrever livremente sobre sexo — em geral, baseado em suas próprias experiências, um verdadeiro libertino.
Henry Miller. Nasceu em Nova York em 1891 e não se pode dizer que teve uma carreira exemplar. Ao contrário. Enquanto a geração de escritores americanos da sua época brilhava, reunindo-se nos bistrôs de Paris, aproveitando-se de uma atmosfera criativa e da vida barata naquela época na França, Henri Miller perdeu o passo. Quando chegou em Paris, em 1927 o brilho da cidade não era o mesmo e ele passou por dificuldades, vivendo em condições precárias até o início da Segunda Guerra. Mas foi lá que conheceu uma de suas mais célebres amantes, a escritora francesa Anais Nin, com quem repartiu não só a cama, mas também uma literatura de com linguagem pessoal e extremamente erótica. Formaram um casal e tanto.
“Ninguém escreveu dessa maneira antes, e ninguém certamente escreverá tão bem. A prosa de Miller é uma torrente, uma catarata, um vulcão, um terremoto […] um escritor-atleta, um fenômeno, um verdadeiro avatar de energia literária.”, disse, certa vez, o escritor Norman Mailer sobre seu conterrâneo. É uma boa definição. Henry Miller despeja sua alma quando escreve em golfadas de vômito íntimo, anarquista e sem pudor. “Se você não conseguir fazer com que as palavras trepem, não as masturbe”, dizia ele. Mas também dizia sobre si mesmo: Um gênio a procura de emprego: eis aí uma das visões mais tristes deste mundo. Não se encaixa em lugar nenhum, ninguém o quer. É desajustado, diz o mundo”.
Ele foi um desajustado. Até porque sua obra, considerada obscena, foi proibida por décadas a fio nos Estados Unidos, tornando-o reconhecido pelo seu talento, mas ignorado pelo grande público. Quando, nos anos 1960, seus livros foram por fim liberados nos EUA, tornou-se rapidamente um clássico, o que lhe permitiu uma velhice confortável até a sua morte, em 1980.
Da sua obra, destaca-se uma trilogia, “A Crucificação Encarnada” como ele chamava, com os títulos “Sexus”, “Nexus” e “Plexus”, nos quais retrata seu modo de vida, seu hedonismos, suas taras, sua relação com as mulheres, sua alma revoltada. Uma mente atormentada, mas ao mesmo tempo cheia de paixão e consciência.
Henry Miller adorava as mulheres e se relacionou intensamente com elas — mas não era partidário da fidelidade. “A monogamia é como estar obrigado a comer batatas fritas todos os dias”, dizia ele. Escrevia sobre sua vida utilizando recursos ficcionais e literários como ninguém ainda havia feito e dedicava-se á literatura com uma mistura inconfundível de gozo e dor. “Nenhum escritor é bom a não ser que tenha sofrido”.
Por tudo isso, e por uma extensa obra com qualidade superior literária, é que aconselho a leitura de sua obra plenamente convencido de sua atualidade e adequação.