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Enquanto nas ruas universitários e povo em geral manifestam indignação com o descaso dos serviços públicos, o governo luta para mostrar boa vontade e números de investimentos que possam ser convincentes.  Um dos alvos dos contestadores é o gasto excessivo que vem ocorrendo com obras relacionadas à Copa do Mundo — e tem sido difícil, para o governo, suavizar essa impressão.

A realidade tem se mostrado cruel — principalmente na questão que está mais sujeita a críticas, o transporte.  Segundo a Matriz de Responsabilidades, publicada em 2010, em que o governo federal assume compromissos de investimento para a Copa do Mundo, dos 44 projetos destinados à mobilidade urbana, apenas um ficou pronto no prazo — duas estações de metrô em Recife. Se o cronograma fosse cumprido, as 12 cidades-sede da Copa do Mundo já estariam usufruindo de um total de 300 quilômetros adicionais de vias, destinados a sistemas de BRT (ônibus em corredor com estações), VLT (veículo leve sobre trilhos) e monotrilhos, além de ampliação de algumas estradas.

A questão é ainda mais complicada porque um dos principais argumentos favoráveis à produção da Copa foi o famoso “legado”, sobretudo na área de transporte. E já se tem certeza de que, pelo menos, dez desses projetos só poderão ficar prontos depois da Copa do Mundo.

O principal motivo do atrasos são as licitações que não saem do papel,  as desapropriações e a burocracia para a liberação da verba, além de mudanças de planejamento: dos 44 projetos iniciais, oito foram derrubados e outros seis incluídos.

Dinheiro não falta. Segundo o Ministério dos Esportes, a quem foi atribuída a administração das verbas, há R$ 8,9 bilhões disponíveis só para obras de mobilidade — dos quais R$ 5 bilhões  financiados pelo BNDES e a Caixa. Desse valor, apenas R$ 1,6 bilhão foram utilizados até agora.

Entre as cidades que vão sediar jogos, Manaus e Salvador não terão obra nenhuma. Em São Paulo e Brasília, as obras serão de menor porte — com a expectativa que as de maior porte sejam finalizadas depois da Copa. Em Belo Horizonte, Curitiba e Fortaleza as obras estarão prontas ainda este ano, embora com atraso. No Rio, um BRT será entregue em fevereiro do ano que vem. Em Natal, duas novas estradas devem ficar prontas até o fim de 2013.

A situação crítica das obras teve um componente extra na semana passada,  quando o secretário-executivo do Ministério do Esporte, Luís Fernandes, anunciou que os gastos com o evento de 2014 sofreram reajuste de 10% em relação ao que estava previsto, passando de  R$ 25,5 bilhões para R$ 28 bilhões. Nesse valor, segundo Luís Fernandes, estão incluídos, além dos  R$ 8,9 bilhões em mobilidade urbana,  investimentos em aeroportos (R$ 8,4 bilhões), em estádios (R$ 7,6 bilhões) e em portos, (R$ 700 milhões). Para as estruturas, equipamentos e capacitação em segurança, o recurso é de R$ 1,9 bilhão. A área de telecomunicações soma R$ 400 milhões e a de turismo, R$ 200 milhões.

A origem desses recursos, segundo o Ministério dos Esportes, se divide da seguinte maneira:R$ 8,7 bilhões são de financiamento federal, R$ 6,5 bilhões do orçamento federal, R$ 7,3 bilhões de recursos locais (governos estaduais e municipais) e R$ 5,6 bilhões de recursos privados.

Por mais que se justifique o esforço do governo em apresentar transparência e boas intenções, os resultados ainda são muito pouco visíveis — e não o serão em tão breve. O volume das verbas extrai inevitavelmente comparações com o que o governo gasta nos serviços públicos. Mas também nesse caso, o Ministério dos Esportes se defende. “Estão fazendo um paralelo entre os recursos para a Copa e em saúde e educação. É bom destacar que, somente este ano, o orçamento das duas áreas é de R$ 177 bilhões. O orçamento do Ministério do Esporte é aproximadamente 1% desse total, incluindo os recursos destinados à rubrica de Copa e Olimpíadas”, declarou Aldo Rebelo, por ocasião da apresentação das novas contas da Copa.

Na ponta do lápis, as contas podem até fazer sentido. Mas causam indignação na prática. Os estádios, por exemplo. O governo alega que são financiados pelo BNDES e por isenção fiscal, que são programas para estimular o desenvolvimento, gerando empregos e infraestrutura. Mas não reconhece que alguns deles, como os de Manaus, Cuiabá, Natal e Brasília, estarão fadados à ociosidade após a Copa. Também não reconhece a arrogância embutida nas exigências da Fifa e o fato de que a entidade prevê um lucro de 4 bilhões de dólares com a realização da Copa.

Assim, por mais que o governo esteja preocupado em justificar seus gastos com a Copa e isolá-los das manifestações indignadas, a impressão de que o evento não está trazendo benefícios à população brasileira persistirá. E com motivos.