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A indústria dos antidepressivos é uma das mais prósperas no Brasil e fora dele. Aqui, a venda da medicação subiu 48% nos últimos cinco anos, segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) com base em dados do IMS Health, instituto que faz auditoria do mercado farmacêutico. Em 2012, foram vendidas 42,33 milhões de caixas, 8,72% a mais do que o ano anterior e quase o triplo do que foi vendido no começo do século. Em vendas, perde apenas para anti-inflamatórios, analgésicos e contraceptivos. Há 130 antidepressivos disponíveis no mercado, a maior parte deles à base de fluoxetina, como o Prozac. E um estudo da Organização Mundial de Saúde (OMS) prevê que em 2020 a depressão será a segunda doença mais prevalente no mundo, ocupando a primeira posição em 2030.

Esses números demonstram que a depressão tem se espalhado mundo afora de maneira indiscriminada, traduzindo o efeito do estresse, do individualismo e solidão da sociedade contemporânea e de um modo de vida urbano cada vez mais cruel com seus cidadãos.

Mas, se por um lado há um consenso de que essa medicação é eficiente e, muitas vezes, essencial para muitas vítimas dessa doença, por outro há críticas incisivas sobre a maneira com que os antidepressivos vem sendo prescritos por médicos, em geral psiquiatras.

A questão repercutiu na  reformulação do DSM (Manual de Estatísticas e Diagnósticos), da APA (Associação Psiquiátrica Americana), a publicação mais importante da psiquiatria, que lista diferentes categorias de transtornos mentais e critérios para diagnosticá-los. Um grupo de trabalho da instituição, conduzido por Lisa Cosgrove, eticista da Universidade Harvard, concluiu que 69% dos pesquisadores responsáveis pela edição do manual estão comprometidos com a indústria farmacêutica. “Três quartos dos grupos de trabalho têm a maioria de seus membros ligados à indústria”, diz o estudo. “Os painéis onde há mais conflito são aqueles sobre problemas mentais para os quais o tratamento farmacológico é a intervenção de praxe.”

Em outras palavras, há psiquiatras trabalhando para os interesses de laboratórios fabricantes de antidepressivos. Segundo o estudo, a maior incidência é de médicos que fazem apresentações dos medicamentos em troca de honorários dos laboratórios.

Mas a questão não é só essa. Há um comportamento generalizado de médicos e dos próprios pacientes em recorrer aos antidepressivos para tratar qualquer tipo de sintoma “da alma”, como enxaqueca, obesidade, fibromialgia, ejaculação precoce, síndrome da fadiga crônica e até tristezas que podem ser consideradas absolutamente comuns. É o que se chama de “medicalização da vida”.

Em entrevista recente ao Roda Vida, programa da TV Cultura, o médico pediatra Daniel Becker não poupou críticas a essa prática. “A psiquiatria é a área de medicina que mais contribuiu para a medicalização da vida e da sociedade”, disse ele. ” Estamos vivendo uma epidemia  de doença mental com um aumento paralelo, pela primeira vez na história, do número de medicamentos e do número de doenças, quando deveria haver uma redução”. Segundo ele, há uma tendência a catalogar os comportamentos e afetos humanos e através de um “conluio sutil, talvez não tão consciente, entre a indústria farmacêutica e a psiquiatria”, desenvolver uma medicação adequado a cada um deles. “Uma industria bilionária que oferece medicamentos para pessoas saudáveis”,  denuncia Becker. Em 2012, os antidepressivos faturaram R$ 1,85 bilhão aqui no Brasil.

As críticas e denúncias da relação promíscua entre psiquiatras e laboratórios, chamada por alguns médicos de biopolítica,ou pelos mais críticos de farmacopornografia, levaram, na semana passada,  o laboratório britânico GlaxoSmithKline, uma das maiores multinacionais farmacêuticas, a decidir não pagar mais viagens e palestras a médicos para a promoção de seus medicamentos. E também mudará a forma de remunerar seus propagandistas, que deixarão de receber de acordo com o número de receitas prescritas pelos médicos que visitam. É uma decisão inédita, que contraria uma prática conhecida e adotada por todos os laboratórios. O motivo principal dessa deliberação do laboratório britânico são as investigações feitas na China em torno de remunerações feitas a médicos para conferências e palestras que nunca ocorreram.

Um estudo recente feito pela Universidade de Tel Aviv pode ser o começo da mudança desse cenário. Nele, concluiu-se que a depressão, que atinge cerca de 350 milhões de pessoas em todo o mundo, pode estar ligada às sinapses e não à carência de serotonina, como se acreditava. Isso permitiria, segundo os geneticistas Noam Shonrom e David Gurwitz, responsáveis pelo estudo, a aplicar  os medicamentos sob medida para cada paciente com base em um simples exame de sangue.

É verdade que a cultura dos antidepressivos se disseminou de tal forma que muitas vezes, segundo Daniel Becker, é o próprio paciente que solicita ao médico. Também é verdade que os antidepressivos são fundamentais para o tratamento de quem realmente sofre da doença — calcula-se que um milhão de pessoas se suicidam por ano em todo o mundo, o que poderia ser evitado com a medicação correta. Mas não se pode “curar” com remédios aquilo que é da natureza humana. Ou vamos de fato ser consumidores de pílulas da felicidade, como preconizou Aldous Huxley em seu livro “Admirável Mundo Novo”?