Por Filipe Amado, de Essaouira, Marrocos

festival de Gnaoua

Já estava nos e planos ir para Essaouira, uma cidadezinha no litoral do Marrocos, mas então eu tive a sorte de pegar bem a época do festival de Gnaoua, um festival internacional de música popular mas que tem o Gnaoua como foco. Contudo logo veio a questão de onde ficar, a cidade é pequena, haveria muita gente para o festival e portanto os preços estavam altos. A solução veio da melhor maneira possível, encontrei um lugar para ficar pelo couchsurfing e tive a incrível experiência de passar quatro dias com uma família marroquina, a onde fui muito bem recebido. Hassan, o garoto um pouco mais novo que eu com quem fiz o contato, esteve comigo o tempo todo e através dele pude conhecer muito melhor a cultura marroquina e a religião mulçumana, algo que nunca teria acesso no circuito turístico. Com ele pude conhecer os hábitos e costumes marroquinos de perto, tomar chá com pão e mel, e comer um impressionante Cuzcuz que jamais encontraria num restaurante. No Marrocos normalmente se come usando apenas as mãos, sem talheres e todos na mesa compartilham o mesmo prato de comida, além de ser algo divertido é sempre uma lição de humildade.
Com Hassam eu pude conhecer a bela Essaouira e sua simpática medina, como sempre com um imenso mercado onde se vende de tudo, o Souk. Essaouera é conhecida como a cidade do vento, porque lá venta o ano inteiro e o tempo todo, situada numa espécie de ponta de terra, ela é rodeada pelo mar o que faz com que o vento seja constante e forte, chegando algumas vezes a ser meio insuportável, eu nunca imaginava sair do calor do deserto para passar frio no Marrocos.
Mas o mais interessante de Essaouira foi o festival de música que pude assistir. O Gnaoua é uma música de origem subsaariana que chegou ao Marrocos com escravos vindos dessa região, muitos desses escravos se tornaram mulçumanos mas conservaram parte de sua cultura, como a música e a religião. O Gnaoua é portanto um sincretismo entre a cultura mulçumana e rituais pagãos, onde se dança e canta para entrar em transe e acredita-se que espíritos incorporam o corpo da pessoa que dança, esses espíritos são cantados o tempo todo na letra das músicas, junto com menções a Ala e o profeta Mohamed. Além desse interessante entendimento sobre a cultura, a música em si é muito louca! Uma puta sonzera que faz todo mundo pular ao som de batuques e uma espécie de baixo que chama Guembri. Milhares de pessoas se aglomeraram envolta do palco principal para ver diversos grupos, muitos de Essaouera tocarem sua música. Um ponto alto foi quando uma banda sul-africa se juntou a um grupo de Gnaoua e fizeram um som repetitivo, parecia um mantra, onde o públuco inteiro parecia entrar em transe, quando percebi eu também estava girando a cabeça e começando a entrar em transe também.
Eu apenas vi dois dos cinco dias de festival, mas já foi muito interanssante conhecer esta cultura africana do Magrebe que lembra em muitos aspectos nossa cultura afro-brasileira, também com sincretismos e transformações.

Depois tive a sorte de poder encontrar meu amigo Amine em Casablanca para um belo dia de surf no Marrocos, foi muita coincidência mesmo porque ele esta trabalhando na Tunisia e justo neste final de semana pôde visitar os pais em Casablanca, eu já estava pensando em ir mesmo e acabou batendo as datas certinho. O ultimo dia passei em Fez, perdido nos labirintos da Medina.

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