o legado da ditadura_poucas_palavras

Por Filipe Amado

A ditadura civil-militar brasileira, instaurada após o golpe de 1964 e que durou no mínimo até 1985, cumpriu seu papel histórico de (de)formação da sociedade brasileira e, se saiu aparentemente de cena, é porque não houve mais necessidade ao encontrarem uma forma mais sofisticada de opressão e de garantir os interesses conservadores no país.

No Brasil da década de 60 não havia nenhum projeto socialista ou revolucionário no cenário político. Diferente do golpe no Chile onde o governo de Allende promovia uma verdadeira revolução social, ou do Uruguai onde a milícia urbana Tupamarus combatia com armas o governo eleito por voto popular, o golpe de Estado no Brasil, apesar do discurso comum de ter sido feito para garantir a liberdade e a democracia, não foi em resposta a nenhum perigo eminente do “esquerdismo”, mas sim a em função da ala mais reacionária da sociedade que não admitia o governo popular, sindicalista e com bases getulistas de João Gular.

Atualmente se usa o conceito de regime civil-militar, pois foi graças ao apoio da sociedade civil que os militares chegaram ao poder e se mantiveram por 21 anos. Havia uma gama de empresários que financiavam o regime militar, como Olavo Setubal dono do Itau e prefeito biônico de São Paulo, ou Roberto Marinho da Globo e muitos que inclusive participavam e financiavam sessões de tortura, como Albert Boilesen, presidente da Ultragás. Não apenas os empresários mas comerciantes e parte da classe média apoiou o regime, seja financiando, seja delatando ou simplesmente votando nos políticos da Arena, todos carrascos voluntários.

Assim após 15 anos no poder, 10 através do AI-5, e após dizimar por completo a esqueda brasileira não havia necessidade de um Estado de exceção no Brasil e o regime começou sua abertura em 1979. A lei de anistia deste ano foi concebida e outorgada unicamente pelos militares, para perdoar seus torturadores, estupradores e assassinos enquanto que os ativistas de esquerda presos cumpriram suas penas por assalta a banco, sequestro e assassinato, entre outras até o final. Os que estavam no exterior puderam voltar é verdade, mas foi apenas isso.

A partir da década de 80 vemos o regime se camuflando mas seus mecanismos continuam ativos, o movimento “diretas já” apesar de forte é derrotado, primeiro Tancredo e depois Sarney são colocados no poder pelos militares. Somente em 1988 uma nova constituição é promulgada, mas a base política do sistema democrático é basicamente a mesma do regime militar, são os mesmos políticos no congresso e os representantes da mesma classe social que continuam mandando no país.

Eis um dos legados da ditadura no Brasil, a mesma classe dirigente de banqueiros, empresários e comerciantes que apoiavam politicamente e financiavam o regime civil-militar, continuam no congresso, com seus bancos e empresas até os dias de hoje. Mas não é apenas isso, a Rede Globo é um grande legado da ditadura no Brasil assim como a maioria dos meios de comunicação, a sociedade ignorante, a educação pública aos cacos e o sistema financeiro falido são legados da ditadura. Mas principalmente a Polícia Militar é com certeza o maior legado da ditadura no Brasil. Esta instituição estatal concebida no interior do regime e embebida em sua filosofia cruel, promove cotidianamente as práticas estabelecidas na ditadura, como tortura, assassinato e desaparecimento de pessoas. Não apenas com uma função política, ela tem como principal alvo atualmente os negros, pobres das periferias das grandes cidades. Esta corporação manteve nos seus cargos os mesmos oficiais da época do regime e segundo o professor Vladimir Safatle da USP, os casos de tortura policial no Brasil aumentaram em relação à época da ditadura.

Assim apesar de termos hoje uma ex-guerrilheira no cargo de presidência da república, boa parte de seu governo é formado por apoiadores dos militares e apesar de finalmente ser instituida uma comissão da verdade, a sociedade ainda reluta em encarar seu passado de frente, cobrando justiça e principalmente, o fim do legado da ditadura no país.