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É provável que o pontapé inicial da Copa do Mundo no Brasil seja dado por um paraplégico. O que parece impossível, tornou-se realidade em dezembro quando o neurobiologista brasileiro Miguel Nicolelis apresentou um vídeo com os primeiros testes com um exoesqueleto comandado por impulsos neurais, resultado do projeto “Andar de Novo”, composto por uma equipe internacional de mais de cem cientistas e liderado por ele. “É como por um homem na lua”, diz Nicolelis. ” A única maneira de fazer o projeto foi recrutar os melhores cientistas do mundo, convencê-los a abrir mão dos seus salários e de suas patentes. Estamos usando algumas ideias inovadoras que ainda não foram sequer publicadas”. O projeto “Andar de Novo” foi considerado pela revista Nature como um dos estudos científicos mais promissores de 2014.

Um adolescente, selecionado pela Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD), usará o exoesqueleto, uma estrutura metálica acoplada da cintura para baixo, conectado por sensores ao cérebro e processado por um computador instalado numa espécie de mochila. Com esse aparato, o adolescente poderá erguer-se da cadeira, dar alguns passos e chutar a bola, utilizando apenas comandos cerebrais. É uma conquista significativa na área de reabilitação de pacientes que sofrem de paralisia corporal, definida pela revista Nature como uma das grandes expectativas científicas deste ano.
“Fizemos essa proposta ao governo. Em vez do show musical, típico das cerimônias de abertura, podemos surpreender o mundo fazendo uma demonstração científica”, disse ele em entrevista à CBS News.
O trabalho de Nicolelis no campo de fisiologia de órgãos e sistemas e integração entre o cérebro humano e neuropróteses ou interfaces não é recente. Professor titular de Neurobiologia e Engenharia Biomédica e co-diretor do Centro de Neuroengenharia da Duke University, Nicolelis já havia provocado impacto quando, em novembro do ano passado, publicou um estudo na revista Science Translacional. Nele, dois macacos aprenderam a controlar movimentos de ambos os braços de um corpo virtual usando apenas a atividade elétrica do cérebro.
Também é de Nicolelis o projeto do Instituto Internacional de Neurociências sediado em Natal, no Rio Grande do Norte. Inaugurado em 2005, graças ao apoio de Lily Safra e da Fundação Safra, na maior doação da história da ciência brasileira, o Instituto conduz pesquisas científicas numa região pouco favorecida e ainda faz um extenso trabalho de assistência social e educacional à população das cidades de Natal, Macaíba e circunvizinhanças. “O campus tem um laboratório de pesquisa, uma escola de ciências para as crianças locais e uma clínica para a saúde da mulher”, disse ele em entrevista ao site Science.
Nicolelis, no entanto, permanece em Duke, de onde se dedica também à sua participação no conceituado Instituto Cérebro e Mente da Escola Politécnica Federal de Lausanne (Suíça,) fazendo estudos avançados da ciência, como eletrofisiologia, sistemas sensoriais e sistema somestésico. E, na década passada, foi considerado pela revista Scientific American um dos 20 maiores cientistas do mundo.
Nascido no Bexiga, palmeirense roxo, agnóstico, filho de juiz e da escritora Giselda Laporta, estudante do colégio Bandeirantes, Nicolelis sempre guiou seus impulsos científicos pela preocupação social, mas optou por viver nos Estados Unidos por considerar que no Brasil não há cultura de ação cientifica, normalmente dominados por doutores do saber. Na comunidade científica internacional, adota uma posição controversa, na qual acredita que o “cérebro cria o modelo do mundo e confirma ou nega esse modelo continuamente”.
Não, Nicolelis não é uma unanimidade. Alguns críticos do seu trabalho denunciam sua abordagem um tanto mecânica sobre o corpo humano, na qual supervaloriza a função do cérebro sobre outros órgãos. Independentemente desses argumentos, Nicolelis já teve seu nome cogitado ao Prêmio Nobel e é talvez o cientista brasileiro que mais próximo chegou a essa condição.