Por Filipe Amado

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O mundo esteve em luto durante esta última semana, a morte de Nelson Mandela comoveu a todos,  a imprensa do mundo inteiro cobriu seu funeral e a comoção atingiu todos os níveis da sociedade. O líder sul-africano é símbolo da luta contra o apartheid , referencia para o movimento negro e tido como um dos grandes pacifistas do mundo. Ninguém ousaria criticá-lo mesmo antes de sua morte:  ele era um líder sem opositores, sem adversários, sem críticos. Mas por que será que isso acontecia, por que será que a mídia conservadora como de costume não o criticava, não o chamava de terrorista como havia feito quando ele foi preso? A resposta é simples:  Mandela não desafiava o status quo dominante na África do Sul, ele não oferecia nenhum perigo para a ordem branca, burguesa e racista que ainda predomina em seu país assim como em outros países do mundo.

Não podemos esquecer que Mandela quando era membro da CNA (Congresso Nacional Africano) defendeu e promoveu a luta armada contra o governo. Isto a mídia não gosta muito de lembrar, prefere dar ênfase à sua grande luta pelos direitos humanos, ao seu caráter pacifista e sua postura conciliadora que adotou após ser solto. Se Mandela adotou essa postura foi por uma questão tática: o país. na década de 1990, mesmo depois do fim do apartheid, continuava totalmente dividido e os conflitos e a violência continuavam existindo. E não era à toa, um país em plenos anos 1990 com uma mentalidade racista e segregadora do século XIX, em que  a maioria da população é negra, não poderia ter a tranquilidade de uma ordem escravocrata do Brasil Colônia em plena África.

Mandela conseguiu habilmente articular o cenário político para tornar viável um governo liderado por um presidente negro pela primeira vez na história do país, sob os olhos de desconfiança da população branca, que na prática ainda continuava no poder, nas principais instituições governamentais e no exército. Ele teve humildade de perdoar todos os crimes cometidos contra seu povo e contra ele inclusive, pois 27 anos de prisão mudam a vida de uma pessoa, para viabilizar um governo de conciliação. É isso que o tornou tão respeitável e idolatrado e é isso que mais se gosta de contar a seu respeito.

Um pacifista, um conciliador, assim que a mídia gosta de chamá-lo, pouco se fala o mais importante: ele foi um defensor dos negros contra a ordem branca opressora, e arriscou sua vida pegando em armas para isso. E nesse sentido não sei se podemos chamá-lo de vitorioso, afinal o apartheid foi abolido mas na prática continua, é só olhar quem mora nas casas de luxo em Pretória, Johanesburgo e outras cidades e quem mora nas periferias, nas vilas pobres do interior. Quem eram os operários que construíram os estádios da copa e quem eram os engenheiros. Os brancos detém o capital e dominam o poder enquanto os negros conquistaram o direito de usar o mesmo ônibus que os brancos e entrar pela mesma porta. Bela igualdade esta.

O apartheid social ainda existe na África do Sul assim como existe no Brasil e em todos os países afro-descendentes, é só ver a proporção de negros e brancos na universidade, é só reparar no tratamento diferenciado dado pelos policiais às pessoas negras. Isso a mídia não fala, afinal é muito mais fácil exaltar um herói pelo lado que convém à sociedade e fazer o possível para esquecer o que não convém. Nelson Mandela tem que ser lembrado pelo que realmente foi, uma pessoa que sempre lutou pelos direitos dos negros contra a ordem branca opressora que continua vigente, e portanto seu trabalho não acabou e deve ser continuado.