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Há uma grande diferença na maneira com que o público, os formadores de opiniões, os produtores culturais tratam os poderosos da mídia — ou seria o contrário? O exemplo brasileiro é Roberto Marinho, dono do Império Globo. Mesmo depois de morto, pouco se fala da sua vida, da sua atuação empresarial, do seu passado — a não ser em produções chapa branca normalmente financiadas pela própria Globo, pela família ou pela Fundação Roberto Marinho. Ou é possível esperar a iniciativa heróica de um cineasta, por exemplo, disposto a fazer a versão tupiniquim de Cidadão Kane (filme supostamente baseado na vida do magnata da imprensa norte-americana William Randolph Hearst)?

Também não é de se esperar que alguém se lance à corajosa missão de escrever uma peça sobre a vida do dono da Globo — como foi feito agora com o australiano Rupert Murdoch, dono de um império de mídia, incluindo a Fox e mais 800 empresas congêneres em 50 países.  A peça “Rupert”, escrita por um dos mais conhecidos dramaturgos da Austrália, David Williamson, deverá estrear ainda em outubro, em Melbourne. Outro autor, o britânico Richard Bean, anunciou também uma peça, a ser encenada no National Theatre, em Londres, sobre o magnata e a prática de grampear o celular de celebridades utilizada por alguns de seus jornalistas.

Assim como Hearst, Murdoch não é nenhum santo. Construiu o seu império usando as estratégias de praxe, engolindo empresas concorrentes, influenciando pesadamente na política australiana, conquistando seu poder a qualquer custo. Mas é capaz de tolerar que seja motivo de risadas no seriado Simpsons, em que aparece como um poderoso inescrupuloso, algumas vezes emprestando sua própria voz — e o seriado é produzido pela Fox.

Mas com Roberto Marinho, não. Fora do Brasil, nos Estados Unidos, por exemplo, a Globo é considerada apenas uma produtora de telenovelas latinas para um público saudoso de dramalhões. Não é nenhum Murdoch. Aqui, no entanto, há uma aura de autoridade que o envolve capaz de torná-lo incólume às eventuais incursões sobre sua vida. Nada mais justo: afinal ele era “assim com os homens” na época da ditadura. Recentemente, o site do jornal Globo fez um “mea culpa” admitindo o erro de apoiar o golpe militar de 1964. Mas a Globo não apenas apoiou — foi instrumento da ditadura, criada com essa finalidade e, dessa situação, prosperou.Os militares voltaram para a caserna, mas Roberto Marinho manteve-se no seu pedestal de autoridade intocável. Há uma ameaça sub-reptícia de que não se pode invadir o império do homem sem pagar caro pelas consequências, seja elas quais forem — por exemplo, não arrumar patrocinador, não ter seu trabalho divulgado, não conseguir mais emprego ou trabalho. É possível imaginar que um ator aceite o papel de interpretar um Sr. Marinho  que bota o dedo no nariz, chama os empregados de inúteis e faz negociações políticas para obter concessões de rádio e TV? Ou um diretor de cinema que retrata um Sr. Globo tendo delírios de poder, sonhando em ser o dono do mundo, em seus momentos íntimos sobre o vaso sanitário? Não. E se por acaso houver algum destemido que resolva ir a fundo na história de Roberto Marinho, será com a consciência de que sua peça ou filme não terá financiamento, não terá patrocinadores, não terá divulgação e, muito possivelmente, não terá onde ser exibido. Porque, afinal, para todos os efeitos, ele é um “grande homem” e qualquer crítica ou incursão à sua vida é, a princípio, injusta e inadequada.

Dizem que a imprensa é o quarto poder. O “jornalista” Roberto Marinho parece concentrar todos os quatro poderes.