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O cara era um americano absolutamente normal: 53 anos, designer profissional, levando sua vida em Nova York como um típico americano de classe média. Daí, foi demitido e, abalado, matou a tiros uma colega de trabalho bem em frente ao Empire States. A polícia interveio e, após um tiroteio, nove pessoas ficaram feridas.

Até aí, tudo bem — é só mais um exemplo da violência urbana a que todos estão sujeitos. O Urbanildo, esse ser internacional que vive em todas as cidades do mundo, está mesmo constantemente no limite da tensão, com aquela sensação de que pode morrer a qualquer minuto. Ou matar. E já faz tempo que é assim. Lembro de um filme, do diretor Alan Arkin,  com Eliot Gould e Donald Sutherland, chamado Pequenos Assassinatos, do começo dos anos 1970. Antes de ser censurado e confiscado aqui no Brasil, algumas poucas pessoas tiveram o privilégio de vê-lo, normalmente em Cine Clube. No pano de fundo de uma história simples, há uma verdadeira febre de assassinatos em Nova York, sem que haja motivos ou repercussões. As pessoas simplesmente começam a se matar aleatoriamente e essa realidade é aceita com naturalizada e conformismo.

Não foi o que ocorreu em Nova York agora. Assim que começou o tiroteio, a cidade se mobilizou. As ruas foram interditadas, as emissoras de TV avisaram a população a permanecer em casa e as pessoas trocaram alucinadamente mensagens de sms alertando do perigo. Perigo? Na verdade, foi um acontecimento isolado, administrado e resolvido rapidamente. Mas o cidadão de Nova York, traumatizado pelos eventos que sofreu e pela constante ameaça real de novo atentado, rendeu-se à paranoia.

Pelo menos, eles têm motivos para ter esse sentimento de pânico coletivo. E nós, brasileiros dos grandes centros? Temos motivos? Sim, com certeza estamos cercados da violência urbana como são todos os Urbanildos. Mas essa sensação nos leva frequentemente a adotar uma segurança ilusória e inútil para enfrenta-la. Shopping Centers são bons porque são seguros — e ninguém vai mais em lojas de rua. Pior ainda, logo ninguém irá aos próprios Shopping Centers, quando se pode usufruir de toda a segurança de fazer compras pela internet. Esse pequeno exemplo irradia-se no comportamento geral. Estádios de futebol são perigosos, ir ao cinema ou a uma balada é perigoso, conversar com alguém na rua é perigoso. Vamos todos, portanto, ficar dentro de suas próprias casas, socializando, comprando, indo ao cinema e até namorando — tudo pelo computador. E entregar as ruas da cidade a esse perigo, imaginário ou não?

O evento em Nova York mostrou que, apesar do pânico coletivo, os cidadãos nutrem um senso de coletividade e compartilhamento excepcional. Você acha que seríamos capazes disso em qualquer de nossas grandes cidades?