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As providências  políticas e legislativas parecem não resolver o problema desta enorme população sufocada de indignação, constituída principalmente de jovens abaixo dos 30 anos, que vai às ruas fazer reivindicações tão dispersas quanto amplas.  São manifestações de um sentimento comum e não tanto contra aspectos técnicos de uma lei, de decisões governamentais ou questões constitucionais.

A reforma política, o plebiscito, a constituinte não conseguem abranger este sentimento e promover uma resposta satisfatória a ele. A última vez em que os jovens foram às ruas de maneira consistente foi por ocasião do movimento dos “caras pintadas” com o objetivo de retirar um quadrilheiro da presidência.  De lá pra cá, passaram-se 20 anos,  uma nova geração surgiu e a realidade transformou-se completamente.

Essa nova geração vem assistindo em silêncio um comportamento constrangedor do governo e da classe política, independentemente de partidos políticos ou pretensas ideologias. Esse comportamento reflete uma realidade que se sobrepõe às leis e os indivíduos, que exerce autoritarismo, falta de compromisso, arrogância, violência, sufocação, arbitrariedade contra o cidadão tal qual a ditadura militar, embora possa se dar ao luxo de se definir como “democrático”.  Nesses 20 anos de “democracia”, sucedendo-se presidentes e partidos no poder, o que esta nova geração viu foi uma ditadura disfarçada que já não engana mais.

O sentimento dos que protestam é de opressão. A máquina governamental inventa um imposto chamado CPMF, destinado  à saúde, mas não apresenta resultados prometidos. Obriga a votar numa classe política corrupta e desmoralizada.  Não enfrenta a avidez dos juros e dos lucros bancários e não socorre a população endividada.  Trata o cidadão com notório descaso em relação às condições básicas de vida, como transporte, educação e saúde. Privilegia uma elite empresarial em detrimento de uma maioria. Estimula a produção e o uso do automóvel, que entope cada vez mais as ruas das grandes cidades e que é um dos mais caros do mundo. Repassa para o cidadão qualquer custo extra provocado por qualquer nova política, que pode envolver o compra de sacos plásticos reutilizáveis dos supermercados até uma nova diretriz de gestão dos portos marítimos. Cria um ambiente político favorável à manutenção de personalidades claramente corruptas e fisiológicas, que vão de Sarney aos coronéis aposentados que administram as sub-prefeituras de São Paulo. Sufoca com violência descabida qualquer manifestação legítima sobre ideias e inquietações populares.  Não oferece nenhuma opção imediata e eficaz às ambições populares — ou sequer dá atenção a elas. Resiste heroicamente a promover a transparência dos gastos públicos. Reforça o poder imperial da classe política, executiva, legislativa e judiciária. Aceita a arrogância impositiva de quadrilheiros como Joseph Blatter e sua corriola de gângsters da Fifa. Enfim, prática uma democracia de araque, para dizer pouco.

O sentimento dos que protestam é o acúmulo deste comportamento e mentalidade de um Estado que nunca abandonou, de fato, os procedimentos ditatoriais de décadas atrás, representados, por exemplo, por uma polícia militar, um dos únicos países que utilizam-na para lidar com a “segurança” da população.  E não são novas leis, novas reformas de papel, que vão aplacar esse sentimento.

O descaso dessa máquina governamental fica ainda mais claro quando ignora completamente o poder das redes sociais e da internet em geral em promover o encontro e a discussão deste sentimento. A classe política brasileira está tão comprometida com atitudes do passado que ainda faz santinho impresso e paga cabo eleitoral para ganhar votos nas eleições. É antiquada e burra — ou talvez seja o simples exercício da soberba do poder. Durante as manifestações, essa mesma classe permaneceu em silêncio sepulcral,  atônita, omissa, sem capacidade de reagir ou sensibilidade para entender a angústia popular.

A máquina governamental já sofreu uma derrota acachapante nas manifestações. Teve que reconhecer sua ignorância e o clamor popular. Revogou os aumentos, reconheceu a violência policial e agora tenta fazer a única ação que existe em seu repertório: reescrever novas leis e regras.

Vai adiantar?