torcedor da copa_poucas_palavras

Hoje eu acordei com vontade de ver um jogo da Copa no estádio, no novíssimo Arena Corinthians. Afinal, o evento vai ser no Brasil, alguns jogos em São Paulo, e eu como brasileiro e morador legítimo desta cidade, achei que poderia ter esse privilégio. Mas descobri que sou um sujeito inadequado, fora dos padrões Fifa, e portanto, devo me contentar com a TV.

Muito antes de saber que todos os ingressos, em todos os estádios, se esgotaram em três horas, tive que percorrer um roteiro torturante. Não dava para me informar que não tinha mais ingresso antes de me submeter a essa tortura?

Não. Você tem que, primeiro, se inscrever, fazer um cadastro, definir um login e senha, dar o nome do pai e da mãe. Daí você recebe um e-mail pelo qual ativa seu cadastro — o que levou não menos uma hora.

Finalmente você entra na área de compra. Antes, porém, de pesquisar os ingressos e descobrir que já não tinha mais nenhum disponível, foi preciso ler três textos enormes, desses  que todo o site tem com os “Termos e Condições Gerais”. Normalmente, todo mundo marca que leu e segue em frente, certo? Na Fifa, não. O sistema não permite você ir em frente sem ter acionado a barra de rolagem dos três textos. Então eu resolvi ler, só de birra, o Código de Conduta no Estádio. Ou seja, como eu deveria me comportar durante uma partida de futebol.

Até porque, recebi a comunicação de que o site estava congestionado e optei por ser avisado com um “sinal sonoro” quando estivesse disponível — o que levou cerca de 40 minutos.

Já um tanto irritado com essa história, conferi o que a Fifa espera de um “torcedor educado”. Não é permitido, por exemplo, comer ou beber qualquer produto que não seja vendido dentro do estádio. Se você estiver em Salvador e comprar um acarajé (sim, finalmente a Fifa permitiu que as baianas trabalhassem fora do estádio), não pode entrar enquanto estiver comendo o quitute. Nada de sandubinhas que você preparou carinhosamente em casa ou até mesmo uma simples garrafa dágua. Objetos, nenhum é permitido. Só bolsas com menos de 25 centímetros. E isqueiros — embora seja proibido fumar em qualquer lugar do estádio.

Não pode gritar muito. O seu grito de “gol” terá de ter alguns “Os” a menos. Na verdade, não se pode fazer nada que possa incomodar o “vizinho”. Não se pode dizer que o time dele é uma merda, por exemplo. Qual é a graça de eu ir num estádio e não poder dizer que o adversário é uma merda?

Também não se pode usar nenhum tipo de roupa com mensagens políticas, ideológicas ou religiosas. Eu gostaria de vestir minha camiseta do Che Guevara, mas percebi que, neste caso, deveria me preparar para uma guerrilha. Aliás, outro fato curioso: quem fiscaliza, autoriza e reprime qualquer coisa dentro do estádio é uma tal de Autoridade da Copa do Mundo. Um misteriosa corporação com poderes máximos dentro das arenas e até nas proximidades delas.

Tudo bem, posso dispensar o Che. Mas vou ter que dispensar também qualquer instrumento que faça barulho, inclusive aquela vuvuzela que meu tio trouxe da África do Sul.  Copa no Brasil é Copa silenciosa, meu caro. Tá pensando o que?

Posso então tirar umas fotos? Não! Só se for para mostrar para os meus netos, porque é proibido publicar nas redes. Não vou poder mostrar para o “povo” a minha imagem abraçando a brasileirinha, fantasiada de periquito, sentada ao meu lado. É proibido entrar com tablets e notebooks e qualquer tipo de dispositivos “usados para os fins de transmissão ou disseminação de sons, imagens, descrições ou resultados dos eventos pela internet ou outros meios”. Aliás, é bom que se diga, não é permitido divulgar qualquer fato que possa “prejudicar a reputação do Evento, conforme avaliado a exclusivo critério das Autoridades da Copa do Mundo”.

A essas alturas, já estava certo de que Copa do Mundo não é pra mim. E fiquei ainda mais convencido quando li que é proibido estar “visivelmente sob a influência de álcool” nos estádios. Será que vai ter bafômetro nas arquibancadas?

Então, para completar o quadro, descobri um item eloquente da filosofia da Fifa. Embora seja proibido levar animais, permite-se a entrada de cães-guias para cegos. É isso! A Fifa quer torcedores cegos nas jogos.

Quando o aviso sonoro me despertou da leitura, eu já estava completamente convencido a não assistir a nenhuma partida.