Essa briga com a Espanha é muito boa. Depois de anos deportando brasileiros que lá chegavam e eram impedidos de entrar no país, a Espanha está finalmente recebendo o troco da política diplomática brasileira. Estamos operando, agora, com as mesmas regras deles.

Mas não é por isso que essa briga é boa. Ao contrário, ela é só pior para os dois países, ou melhor, para os que viajam. A briga é boa porque escancara uma questão antiga que envolve a comunidade internacional — principalmente Estados Unidos e alguns países europeus — e os brasileiros.

A Espanha vem recusando brasileiros faz tempo. Em 2007 foram mais de 3 mil brasileiros que deram com a porta na cara. O ano passado, até que foi pouco: “apenas” um pouco mais do que 1700.  Mas a Espanha não é a única. A nacionalidade mais recusada na Inglaterra é a brasileira: no ano passado, foram mais de 6 mil que não puderam entrar. A segunda colocada é a paquistanesa, menos da metade desse número.

As dificuldades para conseguir um visto para entrar nos Estados Unidos (um visto que, aliás, não garante em nada a entrada no país) são notórias e viraram assunto de debate entre governantes dos dois países. Detalhe: os argentinos, por exemplo, não precisam de visto.

Por que então essa “perseguição” com os brasileiros?

Brasileiros são praga. Estão em todos os lugares do planeta e sempre em grandes quantidades. Somos, sim, um povo com educação pobre que está longe de ter um comportamento adequado aos parâmetros do primeiro mundo. Brasileiro fala alto, não domina idiomas, não obedece regras e não se adapta à cultura local. Até aí, tudo bem. O problema é que muitos vão aos outros países procurar trabalho, fazer poupança, viver na ilegalidade e tirar “vantagens” dessa situação. Espanhóis, europeus, norte-americanos odeiam isso. Mas é preciso dizer também que os brasileiros costumam ser muito sociais, pouco encrenqueiros e sempre queridos nos lugares em que vivem.

O fato de muitos brasileiros migrarem por melhores condições de trabalho até pode ser entendido como uma ameaça à economia local. Vivem ilegalmente, não pagam impostos e roubam empregos dos locais, ainda que sejam os piores empregos, os mais mal remunerados. Isso pode até ser um motivo — mas será que é mesmo?

Vejam o caso da Espanha: é um país falido. Será o próximo da lista, depois da Grécia, a pedir ajuda internacional. Estão com mais de 40% de desemprego. A culpa é dos brasileiros ilegais que trabalham lá? Não mesmo…

O Brasil, por outro lado, é um país que adquire cada vez mais importância na dinâmica da economia internacional. Conta-me um amigo envolvido profissionalmente no assunto: o Banco Santander do Brasil termina todo o mês com o caixa lá embaixo porque manda toda a grana para a matriz espanhola. Estamos sustentando o sistema financeiro espanhol. Isso, só para citar um caso — há muitas empresas espanholas fazendo a festa no nosso mercado.

Para o Brasil ser um “player” fundamental na economia internacional é só questão de tempo — pouco tempo, aliás. Nesse mês, o emprego no Brasil foi quase pleno (pouco mais de 5% de desempregados). Em breve seremos o terceiro maior produtor de petróleo do mundo. O real já é moeda forte. O investimento estrangeiro aqui é um dos mais altos do mundo. Temos as maiores reservas de recursos naturais do mundo. A indústria enfraqueceu, mas é potencialmente vigorosa.

A comunidade internacional sabe disto. Respeito profundamente o Brasil, talvez até mais do que nós. O problema, é que não respeitam os brasileiros. O país é beleza, o povo, não! Por todos os motivos citados acima.

A questão é que o brasileiro não vai mudar. Vai continuar sendo assim, mal educado, inconveniente, desaforado e, ao mesmo tempo, simpático, domesticável, desencanado. E qual o problema? Cada povo tem sua característica. E europeus e norte-americanos têm que nos aceitar assim. Não é possível ficar babando no Brasil, pedindo ajuda, e, ao mesmo tempo discriminar o brasileiro. Tem que levar o pacote inteiro ou não levar nada.

Por isso que a briga é boa. Temos todas as condições agora para nos impor. A Espanha é um país maravilhoso, como uma história política invejável, artistas que permanecem para sempre, uma produção de alimentos e uma gastronomia espetacular e tantas outras qualidades. E ainda roubaram o nosso título de “melhor futebol do mundo”. Os espanhóis são afáveis, mas também tem lá seus defeitos. E daí? Sempre foram bem vindos aqui, assim como todas as nacionalidades: no ano passado, foram recusados apenas 170 estrangeiros, somando-se todas as procedências.

A briga tem que continuar. E não só com a Espanha. Vamos aproveitar o embalo, a moral, o momento, e quebrar o pau mesmo — com a Inglaterra, com os Estados Unidos e com todos que querem sim, o Brasil, mas não aceitam os brasileiros.spain620