Rich-man-poor-man

 

A moça, de qualificação duvidosa, me chama de pobre como se fosse um xingamento — sua intenção é ofender e deixar claro que mulheres como ela precisam de “respaldo” financeiro.  Não quer viajar ou assistir a uma ópera Nova York ou tomar um vinho em Paris. Quer, basicamente, comprar roupas e sapatos de grife — e ser pobre é pecado, nessa sociedade de meninas e meninos liberados. Já o meu amigo, compadre de horas etílicas, critica as escolhas da minha vida dizendo-as perdulárias: “Você precisa aprender a ser pobre”, crava ele.

No meio desses dois, nossas vidas díspares. A rapariga, de antecedentes nada virtuosos, vive num mundo material, tão contemporâneo, em que os benefícios da vida são traduzidos por produtos de consumo — uma Tucson, um sapato Prada, estojo de maquiagem importado, minissaia Calvin Klein, visual rock punk de boutique. E está pronta a cena para a balada, o auge do prazer onírico. É devorada pela sociedade de consumo e passa a ser só mais uma de suas expressões. É assim porque não sabe ser outra coisa. Já o meu amigo luta contra uma verdade imposta que sabe ser frágil sempre que questionada. Há um meio de driblar o excesso de consumo e os valores da riqueza para se apropriar de sua vida sem usar o cartão de crédito. Uma sábia simplicidade contemporânea da melhor espécie. A arte de ser “pobre”.

É o que as pessoas, na tentativa de encontrar caminhos mais equilibrados nessa sociedade, se defrontam diariamente: de um lado, a estupidez do consumo excessivo, dos valores semeados doentiamente, e, do outro, o esforço de enfrentar tudo isso com a clareza dos sábios, buscando simplicidade, adequando-se a um planeta de recursos naturais limitados.

O final da história é que a rapariga escafedeu-se na periferia de São Paulo na busca vã de um amor com muitas posses — uma tarefa bem difícil, levando-se em conta que a região não é a preferida dos ricos  e, afinal, ela não está com essa bola toda. Enquanto meu amigo, de simples sabedoria, aproveitou as férias para passar dez dias na praia do Pipa, junto com a filha, como um verdadeiro endinheirado. A vida é irônica ou simplesmente justa?