Por Filipe Amado

casa grande e senzala_poucas_palavras

Todos já ouviram falar sobre Gilberto Freyre, alguns já leram alguma coisa e poucos o estudaram a fundo, contudo as críticas sobre o autor são amplamente conhecidas e qualquer um fica com um pé atrás para falar sobre ele. Seu livro Casa Grande e Senzala publicado no começo da década de trinta virou referência. Conhecido por defender o mito da democracia racial no país, a miscigenação, e por ter um olhar sexualizado sobre nosso passado colonial, poucos realmente entendem a importância de Gilberto Freyre e conseguem fazer críticas realmente balizadas ao autor.

Para começar Gilberto Freyre não usa sequer uma vez a expressão democracia racial em seu texto. Isto é uma interpretação feita de seus escritos posteriormente. Depois é importante não cair no anacronismo de olhar sua obra com os olhos de hoje. Ele escreve num momento em que estão em alta as teorias raciais e eugênicas, nas quais o negro é visto por muitos cientistas como uma raça inferior e sua participação na história do Brasil é ignorada ou apontada como algo negativo, como se todas as influências ruins na nossa sociedade fossem culpa dos negros e mulatos.

Gilberto Freyre refuta todas essas teorias que buscam difamar os negros, como por exemplo a teoria de superioridade pelo tamanho dos crânios, entre outras. Contudo ele dialoga e discute com elas adotando certos termos, como por exemplo o de raça, que é atualmente considerado incorreto.  Se usa muito a expressão “raça” mas sempre defendendo os negros das tentativas de colocá-los numa posição racialmente inferior, o que Gilberto Freyre faz na verdade é uma verdadeira apologia da “raça negra” e busca explicações culturais e sociais, em vez de físicas e biológicas, sobre o legado da colonização negra no Brasil.

Sendo assim, o autor mostra a importância que o negro escravo teve na formação da sociedade colonial e sua inserção dentro da família patriarcal brasileira, suas contribuições para a cultura, técnicas de produção e culinária.  “Os escravos foram um elemento ativo, criador, e quase se pode acrescentar nobre na colonização do Brasil; degradados apenas na sua condição de escravos… desempenharam uma função civilizadora.” E em seguida completa: “Vieram-lhe da África donas de casa para seus colonos sem mulher branca, técnicos para minas, artífices em ferro, negros entendidos na criação de gado e na industria pastoril…”

Gilberto Freyre considera, assim como outros autores com quem dialoga, uma influência ruim dos escravos negros na sociedade brasileira, como atitudes imorais, luxuria e depravação sexual. Contudo para ele essas atitudes vindas dos escravos não teria como causa a sua inferioridade de raça, mas sim sua condição desumana a que foram submetidos e que qualquer pessoa nesse contexto apresentaria comportamentos depravados e imorais. Nesse sentido é impossível separar o negro do escravo, pois todo negro no Brasil carrega essa herança social degeneradora. Assim o autor rebate a acusação de que a mulher negra corrompeu a vida sexual da sociedade brasileira, afirmando que não é a negra que corrompeu mas sim a escrava. Obviamente Gilberto Freyre compactua com uma série de preconceitos racistas e naturaliza muitas opressões sofridas pelos negros escravos e principalmente pelas escravas, contudo sua intenção é sempre fazer a defesa dos negros e de seu legado no Brasil.

Para ele a sociedade colonial brasileira era depravada e promíscua, e isso se dava por muitas razões, incluindo o clima quente, uma idéia em voga em sua época. Contudo o principal motivo era o sistema econômico e social que foi estabelecido aqui, um sistema de exploração e ao mesmo tempo de convívio entre escravos e senhores, favorecendo a ociosidade dos brancos e um contato inter-racial, muitas vezes com o elemento sexual incluído e nunca sem a relação de dominação e opressão característico das escravidões.

Gilberto Freyre estuda a fundo a família patriarcal brasileira, sua relação dentro da casa-grande e a relação desta com a senzala para mostrar a importância do negro na sociedade e na cultura da época que perdura até hoje.