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Pelé fez 73 anos de vida. Mas a essas alturas, já não importa mais sua idade — ele é o único e definitivo rei brasileiro, vivo ou morto.

Muitos de nós, seus súditos, encaram essa realeza com restrição. Afinal, só quem o viu jogar — ou seja, quem tem mais de 50 anos — é que pode reconhecer sua majestade.

Há sim aqueles que reconhecem seu talento superior pela “literatura” — os vídeos de suas jogadas, os insistentes comentários dos “antigos” e sua fama, indissolúvel, que perpetuou-se fora do Brasil.

Há outros que, mesmo reconhecendo seu talento, fazem comparações com o Messi (antes, com Maradona), principalmente usando os índices de produtividade: gols — por ano, por jogos,por campeonato.

E finalmente há ainda os que atribuem o seu sucesso ao tipo de futebol jogado na época em que atuou — um futebol muito mais lento, com menos marcação e menos exigente em termos de preparo físico.

A todos esses, eu digo, parafraseando Nelson Rodrigues: “jovens, envelheçam”, o que, por sinal, não adiantaria nada.

Pelé não foi superior a todos os outros por ter feito mais gols. Isso é só um detalhe.

Ele foi a sensação de uma Copa do Mundo — a da Suécia, em 1958 — com apenas 17 anos, com jogadas e gols que se não vê hoje em dia.

A partir daí, começou uma carreira transformadora. Inventou jogadas que se eternizaram — como a tabelinha nas pernas do adversário, a finta de meia-lua, o chute a gol do meio de campo, o sem-pulo lateral, estilo “tesoura”, e até a bicicleta. São jogadas que provavelmente outros jogadores fizeram antes dele, mas nunca com tanta perfeição, com tanta frequência e tanto sucesso. Ele também transformou o futebol destruindo defesas e obrigando os times adversários (principalmente europeus) a adotarem esquemas de marcação especiais, individual, o que hoje é uma marca do futebol europeu. Ninguém transformou tanto o futebol como ele.

Pelé foi ídolo do Santos, mas sua realeza irradiou-se por todos os torcedores e, mesmo aqueles que sofriam tendo-o como adversário, reconheciam a sua majestade. Pelé foi ídolo de todos os que amavam o futebol, dentro e fora do Brasil.

Apesar de Messi ser um jogador fantástico e até ter chances de se equiparar, em número de gols, ao rei, nunca será um soberano. Messi tem alta produtividade, mas não é um jogador transformador e nem é capaz de criar tanto como o rei. Pelé foi um cabeceador de primeira, foi armador e finalizador, ambidestro a ponto de bater faltas com a esquerda, tinha alta velocidade e impulsão. E seu acervo de dribles nunca foi igualado. Não só reunia todos os fundamentos do futebol, como também inventou novos.  Nenhum jogador chegou perto disso, muito menos Messi.

Sim, o futebol era muito mais lento e menos marcado na sua época. Para quem usa esse argumento, respondo: imagine Pelé com o preparo físico que usufruem os jogadores atualmente. As proteções de canela, os uniformes leves, a possibilidade de tomar água no meio do jogo (antes, era proibido), as chuteiras hi-tech, as bolas de material leve e impermeável, a tecnologia nutricional, a prevenção e o tratamento de contusões, o limite de números de jogos por ano e até a eficiência das viagens aéreas. Pelé, com toda essa estrutura, seria muito mais Pelé.

Mas, no fundo, nenhum desses argumentos é tão decisivo se comparado ao deslumbramento que tínhamos ao vê-lo atuando ao vivo, nos estádios. Era um demônio encantado. Seus arranques de 50 metros, sua capacidade de sair da marcação de três ou quatro adversários, sua liderança e personalidade maravilhavam até os que deveriam odiá-lo. E não fazia, nem de longe, esse papel hipócrita do “bom menino”: sabia bater no adversário como ninguém, quando sentia que era hora de dar uma resposta à caça que empreendiam contra ele.  Mais ainda: inventou o “pênalti roubado”, enfiando a cabeça sob o braço do adversário.

Depois de encerrada a carreira, Pelé sofreu muitas críticas da mídia e do torcedor brasileiros: pelas suas declarações, pela sua atuação como empresário, pelo seu marketing e até pela relação com seus filhos (reconhecidos ou não) e suas inúmeras mulheres. Lá fora, no entanto, principalmente nos Estados Unidos, onde jogou, e na Europa, ele nunca deixou de ser o brasileiro mais respeitado e famoso, tal como um rei mesmo. Fecho com eles.

Serei sempre seu súdito.