Suboxone, a droga para curar e traficar_poucas_palavras

 

Às vezes o tiro sai pela culatra. Ainda mais quando envolve tratamento para dependentes químicos. É o caso da Suboxone, medicamento utilizado para combater a dependência de analgésicos e opiáceos, principalmente a heroína.

Recentemente, o New York Times publicou uma reportagem sobre o uso do Suboxone, denunciando um mercado paralelo que tem feito da droga a segunda mais vendida nos EUA, perdendo apenas para o Viagra. Médicos têm feito fortunas prescrevendo a medicação como “tratamento” para ex-viciados.  Há exemplos de alguns deles que chegam a cobrar 7 mil dólares para assistir às “necessidades” de seu clientes — o que consiste, basicamente, em emitir receitas da medicação. E o NYT deixa claro que o exercício da medicina, nesse caso, tem invadindo com frequência a fronteira com o tráfico de drogas.

De fato, a Suboxone foi desenvolvida há cerca de dez anos como uma alternativa mais eficiente que a metodona para tratamento de dependentes de opiáceos em geral.  Principalmente viciados em heroína mas, também, aqueles que por qualquer motivo, criaram dependências com analgésicos. É o caso de pacientes com câncer ou vítimas de acidentes graves, por exemplo.

A Suboxone, nome comercial da buprenorfina, é um opiáceo químico e “é comum que a droga para combater dependência também crie dependência”, explica o psiquiatra Eduardo Brazolini, há 20 anos tratando pacientes com dependência química. Acontece que o sucesso da Suboxone extrapolou os limites da medicina, tornando-se um caso parecido com a metaanfetamina, cujo tráfico é tema central da série Breaking Bad. A droga sai dos laboratórios para municiar um contingente cada vez maior de viciados nela mesmo.

Mas o sucesso comercial da Suboxone é encoberto, segundo a denúncia do NYT. Não há interesse de alardear esse mercado vigoroso, o que poria em risco a legalidade do produto. O laboratório Reckitt & Colman, responsável pela distribuição da Suboxone nos EUA, tem feito esforços, segundo a publicação americana, de manter a medicação fora do alcance das agências de regulamentação de remédios, solidária, é claro, com o consumo desenfreado — e para isso também conta com a ajuda de um grupo de médicos que lucram com a prática. Em outras palavras, muito além de estabelecer dependência, a Suboxone tem revelado uma lado obscuro da medicina e da indústria de remédio, cujos objetivos nem sequer se aproximam do conceito de tratamento ou cura.

A Suboxone chegou oficialmente no Brasil em 2007. No site do Ministério da Justiça há uma nota desta época que, de certa forma, “comemora” a entrada da medicação no nosso mercado como uma alternativa mais eficaz à metadona. No entanto, a prescrição da droga é controlada pela Anvisa. “É feita com a receita de cor amarela, que é a mais controlada”, diz  Eduardo Brazolini. Segundo o psiquiatra, a Suboxone é distribuída no  Brasil pelo  laboratório italiano Moltene, especializado na fabricação de drogas para dependentes. Em outras palavras, a buprenorfina está por aí, talvez na farmácia da esquina. Como ela é indicada principalmente para dependentes de heroína, muito pouco consumida no Brasil, ainda não ganhou popularidade por nossas bandas. Mas isso não impede que conquiste seu próprio mercado no mundo das drogas — como, aliás, já está acontecendo nos EUA.