a_beleza_dos_vinte_poucas_palavras

O cinema é uma máquina que faz sonhar. Essa afirmação é uma metáfora ou pode ser mais que metáfora? Ora, quando sonhamos estamos dormindo e quando assistimos a um filme estamos acordados mesmo que fiquemos imersos, hipnotizados e suspensos pelo filme.

Mas, existe uma situação na qual sonhamos acordados, os devaneios.O devaneio é uma vivência que nos ocorre com certa frequência e funciona como uma espécie de filme (às vezes agradável, às vezes desagradável) que passa na nossa cabeça e podemos ficar imersos nesse filme como se fosse num cinema.

O poder do cinema e de outras mídias audio visuais guarda relação com esse ¨fator devaneio¨ que faz parte do funcionamento de nossa mente em ¨condições normais de temperatura e pressão¨. Numa sala de cinema absorvidos por um filme ou no momento em que nos entregamos a um devaneio (no transito, por exemplo), a realidade ¨está e não está¨, é como se ficasse ¨ao lado” ou se transformasse por instantes no próprio filme mental em nossa cabeça. O devaneio solicita considerar representações mentais que habitam uma espécie de espaço-limite entre vida de vigília e sonho. O devaneio é uma construção mental que guarda familiaridade com a alucinação, mas que não chega a sê-lo efetivamente. Assim como em certos formatos midiáticos, o devaneio propõe um fluxo imagético cuja passagem o EU assiste reduzido a um objeto da cena ou espectador inerte, por vezes paralisado.

Algumas das interfaces comunicacionais que pululam em nosso mundo nos oferecem a possibilidade de uma vivência semelhante à do devaneio no que diz respeito à convocação do pensamento do usuário ou espectador: ou seja, assim como no devaneio, essas interfaces midiáticas podem oferecer ao vedor um fluxo imagético capaz de em nada ou muito pouco solicitar o trabalho do pensamento por parte do vedor. Isso não é uma norma, mas tendência relativa àquilo que se dá a ver numa tela. No devaneio o Eu é mais pensado do que pensa e essa possibilidade também entre em jogo nas mídias áudio visuais, daí o prazer da sensação de um ¨afastamento da realidade¨ que uma tela pode produzir em nós.

Assim sendo, será que os devaneios midiáticos seriam capazes de fazer conexão com os devaneios que carregamos na cabeça? Ou seja, será que uma fantasia num devaneio midiático seria capaz de fazer conexão com os anseios e fantasias dos espectadores e assim influenciá-los?

Pois bem, um evento a ser considerado do ponto de vista do caráter estético formal da linguagem do cinema é o caso David Wark Griffith. Griffith foi o diretor de cinema norte-americano que em 1908 introduziu na linguagem cinematográfica novidades como as ações paralelas e as tomadas em primeiro plano (close) no filme The AdventuresofDollie.

Uma das conseqüências dessas inovações na linguagem cinematográfica foi uma intervenção num valor estético dominante da época: até então, o ápice da beleza feminina fazia sua morada nos corpos de mulheres que rondavam a casa dos 40 anos de idade. No entanto, os rostos dessas mulheres não resistiam à tomada em primeiro plano. O close destacava em excesso as rugas nos rostos, e o dado real do envelhecimento do corpo tornava-se por demais intenso para a visão dos expectadores. Esse elemento formal incorporado ao fluxo imagético próprio ao texto fílmico foi capaz de abalar o valor (libidinal) que algumas rugas de expressão poderiam ter no rosto de uma mulher da época, ou seja, o valor de uma maturidade de agradável desfrute como no caso das jovens senhoras do universo de Machado de Assis. A partir de então a maquiagem desenvolveu-se mais intensamente colocando-se a serviço da construção da face de vinte anos que, por sua vez, se tornou o véu privilegiado da beleza feminina mesmo para quem não tem essa idade.

Seria um exagero supor que a prevalência contemporânea da juventude (o padrão¨vinte anos¨) como valor estético de alta intensidade seja tão-somente um desdobramento deste caso vinculado a elementos formais da linguagem do cinema; contudo, não se pode ignorar que nesse caso temos um marco inicial do reinado da juventude em seus contornos contemporâneos. Um marco formal que primeiro existiu como devaneio projetado na tela.

Eduardo Furtado Leite, psicanalista

  furtadoleite@yahoo.com.br