não merece ser estuprada_poucas_palavras

É muito justa a revolta, manifestada nas redes sociais, com o resultado da pesquisa do IPEA, “Tolerância Social à Violência Contra as Mulheres”. Afinal, são números chocantes: 65% das pessoas que responderam à pesquisa concordam que “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas” e 58,5% concordam que “se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros”.

No entanto, há um detalhe que passa despercebido pela maioria dos que se revoltaram com os resultados: 66% dos entrevistados são mulheres. Ou seja, é possível concluir que as próprias mulheres, ou pelo menos boa parte delas, concordam com esse conceito equivocado de causa e efeito — o supra sumo do machismo. Um conceito que deu origem à Marcha das Vadias e a todo um pensamento em defesa da liberdade feminina.

Mas a questão não é apenas “dividir a culpa”. É poder notar, com bastante clareza, que a sociedade brasileira — o que inclui homens e mulheres — ainda está comprometida a valores extremamente conservadores, em que o homem é centro da sociedade, o chefe, o dono das coisas. Tanto para eles quanto para elas.

Muito além desse aval ao crime de estupro, a pesquisa IPEA revelou que em termos de relacionamento homem-mulher, do conceito da família e da discriminação sexual da nossa sociedade, ainda mal saímos do século XIX. A família patriarcal surge incólume da pesquisa: quase 64% dos entrevistados (homens e mulheres) concordam que “os homens devem ser a cabeça do lar” e a grande maioria acredita que “roupa suja deve ser lavada em casa” (89%) e “em briga de marido e mulher não se mete a colher” (82%), o que é uma clara resistência à interferência do poder público (leia-se polícia) nos mandos e desmandos da figura masculina dentro do casamento e da família.

O único aspecto em que se registra uma mentalidade mais próxima do século XXI é um razoável repúdio à violência do homem contra a mulher. Os brasileiros (e brasileiras) já não aceitam que as brigas entre casais terminem na porrada: 91% concorda que “homem que bate na esposa tem que ir para a cadeia”.

O perfil final da pesquisa poderia ser resumido da seguinte forma: os homens é que mandam, a mulher tem que se comportar e se vestir adequadamente, e se assim for, diz a nossa sociedade, a mulher não pode apanhar. Feita as contas, a conclusão é a seguinte: em termos de valores morais, estamos por volta de 1950, quando o fim da guerra mundial promoveu os primeiros pensamentos da liberdade feminina no mundo ocidental.